O serviço militar obrigatório em “Israel” é um dos pilares fundamentais de sua sociedade, fundamentada na repressão dos povos adjacentes, funcionando como um rito de passagem para jovens que atingem a maioridade. Israelenses são ensinados desde a infância que vestir o uniforme das Forças de Defesa de “Israel”, ou FDI, representa não apenas uma obrigação legal, mas um símbolo de pertencimento nacional e lealdade ao Estado. Esse sistema, imposto pelo imperialismo para consolidar a militarização da sociedade israelense, seu enclave no Oriente Médio, enfrenta hoje uma crise de maiores proporções do que nas últimas décadas.
Desde o início da ofensiva contra a população de Gaza em outubro de 2023, após a glória da maior operação da resistência palestina contra “Israel”, um número crescente de soldados israelenses – tanto recrutas quanto reservistas – tem se recusado a servir. Essas recusas vão desde deserções silenciosas, como fugas internas ou de país, até declarações públicas de objeção de consciência, muitas vezes acompanhadas de prisões e ostracismo social. Jovens objetores e veteranos têm denunciado as atrocidades cometidas em Gaza, das execuções sumárias até destruição indiscriminada de lares palestinos e a morte de civis inocentes. Como exposto pela imprensa árabe e local, as atrocidades vão de atrocidades de guerra comuns para o imperialismo até peculiaridades até nesses casos especiais, como o episódio documentado em vídeo e relatos onde soldados israelenses utilizaram cães para estuprar prisioneiros palestinos. Para esses “refuseniks” (recusadores, como são conhecidos), continuar servindo significa ser cúmplice do genocídio e apartheid. Destaca-se, neste ponto, o uso destes termos pelos desertores israelenses, pois historicamente “Israel” e seus cidadãos negam tanto o genocídio, quanto a limpeza étnica, a prisão a céu aberto e o apartheid em Gaza e na Cisjordânia.
O massacre na Palestina já resultou na morte de mais de 46.000 palestinos de Gaza e no deslocamento interno de mais de 95% da população do enclave, enquanto “Israel” enfrenta uma crise interna sem precedentes, sendo recorde o número de suicídios entre soldados, refusa de servir por “esgotamento psicológico” e uma resistência generalizada ao serviço militar. Segundo a própria FDI, até 3 de janeiro de 2025, 28 soldados tiraram suas próprias vidas com sucesso após o aumento do genocídio, tendo mais de centenas de soldados tendo sido “socorridos” antes de efetivarem seus suicídios. Em março de 2024, com pouco mais de 5 meses de chacina, Lucian Tatsa-Laur, chefe do departamento de saúde mental do exército de “Israel”, havia informado, segundo matéria do jornal israelense Haaretz, que 1.700 soldados israelenses foram retirados de Gaza por apresentarem problemas psicológicos graves, necessitando de tratamento.
Crise silenciosa na ocupação
Como o serviço militar é amplamente considerado um dever cívico e um símbolo de unidade nacional, o fenômeno de desertar sem buscar dar grandes explicações, apenas querendo fugir, conhecido como “recusa silenciosa” ou “recusa cinza”, reflete não apenas o esgotamento físico e psicológico dos algozes do povo palestino, mas também sua profunda desilusão com as operações militares conduzidas no território palestino e aqui são duas as situações encontradas. A primeira, com máscara humanitária e um maior grau de cinismo, consiste no desconhecimento de alguns israelenses no grau de maldade que era cometido contra palestinos. Sabiam que Gaza era um campo de concentração, sabiam que todo palestino possuía um alvo invisível na testa e que poderiam matá-lo por vontade, mas talvez não soubessem do sadismo dos comandantes de mandarem matar os pais das crianças e atirar nas crianças de forma não-letal para deixá-las sangrar até morrer – como fez Iuval Vagdani, soldado israelense foragido no Brasil protegido pela Polícia Federal e pelo Mossad. O segundo caso, porém, é mais emblemático, pois representa a descrença dos sionistas na vitória das operações, que, finalmente, assassinam civis, exterminam um país, mas não obtêm sequer uma vitória política, acumulando derrotas e crises.
De acordo com relatos publicados pela revista Ha-Makom, soldados frequentemente se recusam a participar de missões em Gaza alegando incapacidade psicológica ou moral. Em um caso recente, apenas seis dos 30 soldados de uma unidade da Brigada Nahal se apresentaram para uma missão em Gaza. Os demais simplesmente se recusaram a retornar, citando o trauma acumulado e a percepção de que as operações militares são fúteis. “Eles voltam para os mesmos lugares onde já lutaram antes, como Jabalia e Al-Zaitum. Eles sabem que é inútil e sem sentido”, relatou a mãe de um dos soldados.
Além disso, muitos soldados relatam condições extremas no campo de batalha, com longos períodos sem descanso adequado, confrontos frequentes com combatentes do Hamas e a constante exposição à morte e à destruição. Segundo outra mãe entrevistada pela Ha-Makom, “o que os destrói são as condições e a duração do combate, que parece não ter fim”. Essa situação tem levado muitos a buscar formas discretas de abandonar o serviço ativo, evitando punições severas.
Outros relatos abordam transtornos de estresse pós-traumático (TEPT), incluindo pesadelos recorrentes, ansiedade severa e dificuldade em reintegrar-se à vida civil após o serviço militar. Um soldado da Brigada Nahal descreveu os hospitais militares como “vazios”, pois todos os que não estão mortos ou feridos fisicamente estão “mentalmente danificados”. Esse estado de esgotamento psicológico é conhecido no jargão militar israelense como estar “black” – deprimido, exausto e desmotivado. A Doutrina Danié, que justifica o uso completo da força contra civis e infraestrutura palestina como estratégia militar, exacerba esses dilemas éticos dos militares da ocupação, segundo os próprios militares. Esta doutrina abraça, por exemplo, a prática comum demolir casas residenciais com civis dentro ou fuzilar alvos civis quando ordens superiores forem dadas, gerando sentimentos de culpa e vergonha para os israelenses que ainda não haviam compreendido que o enclave sionista foi e é fundamentado no sangramento do povo árabe.
Os reservistas também têm desempenhado um papel importante na exposição dessa crise silenciosa. Em outubro de 2024, 130 soldados – incluindo reservistas – assinaram uma carta pública endereçada ao primeiro-ministro Benjamin Netaniahu declarando-se desertores. Eles criticaram a condução do conflito em Gaza e, em uma abordagem mais tradicional sob a ótica israelense, denunciaram que “muitos reféns morreram devido aos bombardeios das FDI”, como afirmaram na carta. Assaf (nome fictício), um signatário da carta, descreveu uma experiência em Gaza, relembrando uma noite em que mirou seu rifle em um palestino desarmado: “Olhei para ele através da mira telescópica e percebi que aquele não era o rosto de alguém que representava uma ameaça para nós”, classificando este momento como o marco de sua decisão de abandonar o serviço militar. Assaf também criticou, apesar do cinismo, a falta de clareza nos protocolos militares e o impacto devastador das operações sobre civis palestinos. Outro reservista, Michael Ofer-Ziv, relatou ter testemunhado a morte acidental de três reféns israelenses pelas mãos das FDI durante um ataque em Gaza (Israeli deserters against Netanyahu: ‘I would re-enlist if we were fighting to get the hostages back’, El País, 31/10/2024).
O interessante desta carta é que não se trata de militantes anti-sionistas, tampouco nacionalistas árabes. São israelenses, mas militares israelenses que gostariam de entrar em Gaza, apenas discordando do método ou da forma. Max Kresch, por exemplo, outro reservista que assinou a carta pública, ao criticar Benjamin Netaniahu, comparou-no com Iahia Sinuar, líder da resistência palestina martirizado pelo Estado de “Israel”, mas categorizando-o de forma negativa. Segundo Max, ambos são “prejudiciais para seus povos”, descrevendo ambos como racistas. Ou seja, não se trata de uma visão minimamente progressista, mas consolidada nos mesmos princípios supremacistas que formaram o exército de ocupação sionista (idem).
Para esses soldados e reservistas, a recusa ao serviço quando vai além da questão pessoal, é um chamado de atenção para as falhas éticas e estratégicas das operações militares israelenses.

Novos refuseniks
Dentre a própria sociedade israelense, há um movimento, também, de jovens, que ainda não possuem idade para servir, mas já apontam que desertarão quando chegar o momento. Eles estão desafiando não apenas a obrigatoriedade do serviço militar, mas também os fundamentos éticos e políticos que sustentam a ocupação dos territórios palestinos, gerando uma crise interna que dificulta ainda mais os planos do imperialismo para a região.
Desde outubro de 2023, mais de 200 estudantes do ensino médio foram perseguidos por suas declarações públicas ou suas intenções de não se alistarem. Entre os casos mais emblemáticos estão os de Iuval Moav, Orian Mueller e Itamar Greenberg, que enfrentaram sentenças iniciais de 30 dias na prisão militar por se recusarem a participar do genocídio. Esses três jovens, independentemente do que pensam individualmente, representam uma possibilidade para diversos outros jovens, tanto para os que rejeitam o papel das FDI, quanto os que repudiam o genocídio e vão contra as farsas sionistas que buscam justificar as ações militares israelenses (Three Israeli army refusers: ‘We will not participate in genocide’, +972 Magazine, 7/8/2024).
Em suas declarações públicas, os refuseniks destacam o impacto devastador das operações militares sobre civis palestinos. Iuval Moav, por exemplo, afirmou: “Não posso ser cúmplice de um genocídio. Prefiro enfrentar a prisão do que carregar essa mancha em minha consciência pelo resto da vida.” O movimento Mesarvot, que apoia desertores em Israel, tem oferecido suporte legal para aqueles que enfrentam o sistema militar israelense (idem).
Recusar-se a servir no exército é um ato profundamente subversivo em uma sociedade onde o serviço militar é visto como um rito de passagem e uma obrigação moral. Em “Israel”, da forma mais perversa, as FDI são amplamente celebradas como “o exército mais moral do mundo”, e o serviço militar é frequentemente associado à identidade nacional e à mobilidade social. Jovens que se recusam a servir enfrentam sanções legais e caem na desgraça daqueles que conviveram por toda a vida, sendo considerados traidores e sub-humanos.
Mesmo assim, os custos pessoais para esses jovens são altos e é também por isso que o aumento da deserção tem o seu valor. Além das penas de prisão – que podem ser renovadas indefinidamente enquanto persistirem na recusa –, muitos enfrentam dificuldades para acessar empregos e oportunidades educacionais após serem rotulados como “traidores”. Apesar da visibilidade crescente dos refuseniks, eles ainda são uma minoria dentro da sociedade israelense. A maioria dos jovens continua se alistando nas FDI sem questionar as implicações desse ato, querendo ativamente acabar, um a um, com os palestinos de Gaza. No entanto, os desertores representam uma fissura importante.
Recusa feminina
Embora a resistência ao serviço militar em “Israel” seja frequentemente associada a jovens homens e reservistas, que são maioria no fronte, as mulheres também têm um papel importante nesse movimento. Desde outubro de 2023, mais de 100 soldados mulheres israelenses recusaram-se a participar de missões militares, especialmente em unidades de observação na fronteira com Gaza. Esse fenômeno é menos visível, mas igualmente real.
As unidades de observação nas quais muitas dessas mulheres servem são responsáveis por monitorar câmeras ao longo da fronteira entre Gaza e os territórios ocupados de 1948. Essas tarefas, com uma falsa máscara de “não combativas”, colocam as soldadas em uma posição direta de cumplicidade com a ocupação militar e o massacre. Relatos indicam que cerca de 30% das conscritas convocadas para essas funções recusaram-se a comparecer aos treinamentos, alegando razões psicológicas ou éticas.
Em um caso emblemático, uma conscrita relatou à imprensa israelense que tentou obter uma isenção médica devido a “ansiedade severa” e “transtorno de déficit de atenção”. No entanto, suas solicitações foram ignoradas pelo comando militar, levando-a a ser presa por se recusar a servir. “Desde o início da guerra, não consigo funcionar”, afirmou ela à família. “O exército não se importa com meus documentos médicos e simplesmente me jogou na prisão.”
Segundo dados do exército israelense, cerca de 200 soldados – incluindo mulheres – foram dispensados do serviço militar desde outubro de 2023 devido a transtornos psicológicos relacionados à guerra. Mas, como relataram médicos israelenses e fontes internas do jornal Haaretz para o veículo sionista, esses números subestimam a verdadeira extensão da crise de saúde mental entre os soldados, levando a conclusão lógica de serem maquiados pelo exército de ocupação.
Sofia Orr, uma jovem refusenik que enfrentou prisão por se recusar a servir, declarou publicamente se recusar “a participar das políticas violentas de opressão e apartheid que “Israel” impõe ao povo palestino” e, até por isso, essa recusa feminina ao serviço militar tem gerado reações mistas na sociedade israelense. Tem quem reconheça sua coragem em desafiar o seu regime, seja numa lógica mais ampla, reconhecendo “Israel” como o fantoche do imperialismo que é, seja por uma vertente mais nacionalista burguesa do sionismo, se posicionando apenas contra a ditadura de Netaniahu. Mas a maioria, como reportam os jornais árabes e sionistas, enxergam essas ações como traição nacional (‘Youth Against Dictatorship’: Meet Israel’s new class of conscientious objectors, +972 Magazine, 5/9/2023).

Relatos, Doutrina Danié e impacto psicológico
Michael Ofer-Ziv, um oficial de operações das FDI, descreveu como passou semanas monitorando imagens de drones na Faixa de Gaza, decidindo quais alvos seriam bombardeados. Em uma ocasião, ele testemunhou a morte de três reféns israelenses pelas mãos de seus próprios colegas soldados e, sendo ele israelense, foi o que mais o marcou, já que a perda de dezenas de milhares de civis palestinos não aparecem na maior parte de seus relatos, tendo espaço apenas em pequenos comentários. Segundo ele, os reféns haviam se aproximado das tropas segurando bandeiras brancas e gritando em hebraico, mas foram mortos mesmo assim. “Quantos incidentes semelhantes ocorreram com palestinos que tentavam fugir da guerra?”
Já mencionada anteriormente, mas a Doutrina Danié é constantemente mencionada pelos desertores. É ela que orienta as FDI a usarem força desproporcional contra civis e infraestrutura palestina como forma de dissuasão, não importando quantas vidas serão perdidas no processo e categorizando que, dependendo da situação e da percepção do militar de patente superior, as vidas perdidas são não efeitos colaterais, mas objetivos a serem alcançados. Essa política justifica ações como a demolição de casas residenciais com civis dentro e ataques a hospitais e escolas sob pretexto militar. Para muitos soldados, essas ordens criam um dilema moral insuportável.
Iuval Green, um paramédico militar que serviu em Cã Iunis, descreveu como foi ordenado a incendiar uma casa sem justificativa clara. “Quando questionei meu comandante sobre o motivo dessa ordem, as respostas não foram boas o suficiente”. Ele decidiu abandonar sua unidade no dia seguinte. Esses relatos ilustram como a Doutrina Danié não apenas exacerba o sofrimento dos palestinos massacrados, mas também contribui para a desmoralização dos soldados israelenses. Muitos soldados relatam sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), incluindo insônia, flashbacks e sentimentos de culpa. Além disso, o conceito de “dano moral” – quando ações militares violam os valores éticos dos soldados – é assunto discutido entre os veteranos desde os escritórios até as tribunas de julgamento, já tendo sido assunto até no knesset – parlamento israelense tomado por genocidas. De acordo com dados do exército israelense, cerca de 30 mil soldados procuraram ajuda psicológica desde o início da guerra em Gaza. No entanto, muitos reservistas afirmam que o apoio oferecido é insuficiente para lidar com os traumas acumulados durante o serviço militar.
O Estado de “Israel”, sustentado pelo imperialismo e atrelado desde o berço aos Estados Unidos, perpetua um regime de apartheid e genocídio contra o povo palestino, mascarando sua política expansionista sob o pretexto de segurança nacional. Os dados são absolutos: mais de 46.000 palestinos mortos, incluindo milhares de crianças, e mais de 95% da população de Gaza deslocada internamente. Esses números revelam a verdadeira face do supremacismo moderno, com uma política de caráter colonial absoluta, financiada pela Europa e pela América do Norte, além das monarquias árabes. Por outro lado, a resistência palestina, sem medo da ascensão ao martírio, vence no campo militar e político, sendo fruto de suas vitórias a confusão interna de jovens israelenses e reservistas que se recusam a participar desse sistema opressor. Para a sociedade israelense, a deserção é uma fagulha de esperança em meio à derrota certa e do fim de “Israel”. Suas denúncias expõem não apenas os crimes de guerra cometidos pelas FDI, mas também as contradições morais e políticas do sionismo.