No dia 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos bombardearam a Venezuela e, aproveitando o caos provocado pela ofensiva aérea e naval, sequestraram o presidente Nicolás Maduro, em uma operação conduzida por tropas especiais norte-americanas no interior do território venezuelano. A agressão ocorreu durante a noite de sexta-feira (2) e a madrugada de sábado (3), após semanas de cerco no Mar do Caribe, descritas por fontes venezuelanas como marcadas por execuções sumárias em águas da região. Horas depois do anúncio feito por Donald Trump, a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodriguez, declarou que o governo desconhecia o paradeiro do chefe de Estado e exigiu do governo norte-americano “prova de vida”, responsabilizando o governo norte-americano pela integridade física do presidente venezuelano.
Segundo as informações divulgadas, as Forças Armadas dos Estados Unidos atingiram áreas civis e militares em Caracas (capital da Venezuela) e nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira. Além do bombardeio na capital, foram relatadas interrupções de energia em setores da capital. Autoridades venezuelanas também mencionaram ataques a instalações militares e energéticas da cidade. Ainda de acordo com Delcy Rodriguez, Maduro havia alertado previamente o povo venezuelano sobre a possibilidade de uma agressão desse tipo, que atingiria civis em diversos pontos do país, e, diante do ataque, foi ativada a defesa nacional conforme as instruções do mandatário.
A operação norte-americana mobilizou grande aparato militar. As informações reunidas indicam a presença de destróieres, um submarino nuclear, o porta-aviões USS Gerald R. Ford e mais de 4.000 militares envolvidos na agressão. Paralelamente ao bombardeio, os Estados Unidos impuseram medidas de restrição ao tráfego aéreo: autoridades norte-americanas proibiram companhias comerciais de operar no espaço aéreo venezuelano, sob a alegação de “atividade militar em andamento”. A embaixada dos EUA em Caracas também emitiu alerta máximo desaconselhando viagens ao país.
Poucas horas após o início dos ataques, o governo venezuelano anunciou medidas de emergência. Maduro decretou estado de Comoção Exterior em todo o território nacional, determinou a ativação dos planos de defesa nacional, ordenou o desdobramento do Comando para a Defesa Integral da Nação e anunciou a passagem imediata à defesa armada.
Setores do próprio regime norte-americano trataram de apresentar uma “justificativa” para o crime. Em publicação no X, o senador republicano Mike Lee afirmou que conversou por telefone com o secretário de Estado Marco Rubio e declarou que os bombardeios teriam sido utilizados apenas para dar cobertura ao sequestro do presidente venezuelano. Segundo o senador, Rubio teria informado que Maduro foi “preso por pessoal dos EUA” para ser julgado nos Estados Unidos e que “a ação cinética” teria sido mobilizada para “proteger e defender” os agentes que estariam “executando o mandado de prisão”. A alegação, nos termos colocados, busca criar um pretexto “legal” para a agressão militar e para o sequestro, como se um suposto “mandado” norte-americano pudesse substituir qualquer norma do direito internacional, dispensando inclusive declaração de guerra ou autorização específica para o uso das Forças Armadas. Mike Lee também afirmou que, uma vez que Maduro estaria sob custódia norte-americana, as operações “cessaram em absoluto”.
Na tarde de sábado (3), em coletiva de imprensa na Flórida, Donald Trump declarou que os Estados Unidos irão “governar” a Venezuela até que uma “transição” seja concluída. “Não queremos que outra pessoa assuma o poder e nos deparemos com a mesma situação que tivemos nos últimos anos. Portanto, vamos governar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa, e ela precisa ser criteriosa. Porque é isso que nos define”, afirmou. Trump ameaçou ainda uma segunda onda de ataques, “muito maior”, caso houvesse resistência à ingerência norte-americana. Momentos antes da coletiva, Trump divulgou uma imagem de Nicolás Maduro com os olhos vendados e sob custódia de agentes norte-americanos.
Diante do sequestro e do bombardeio, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) divulgou comunicado convocando governos e povos de todo o mundo a protestarem contra a agressão e exigirem condenação internacional. “Convocamos todos os governos e povos do mundo a expressarem sua condenação total a esta ação militar grotesca que viola a Carta das Nações Unidas e pisoteia o direito internacional. Aos nossos aliados, partidos políticos, movimentos sociais, organizações e a todos que acreditam na convivência pacífica e no respeito entre as nações, que se mobilizem de maneira imediata e permanente através de comunicados, pronunciamentos públicos, protestos e ações perante parlamentos, embaixadas e sedes de organismos internacionais”, diz o texto.
Em Cuba, moradores de Havana reuniram-se na Tribuna Anti-imperialista com gritos de “Abaixo o imperialismo!”, em ato de condenação ao cerco prolongado contra a Venezuela, ao bombardeio e ao sequestro do presidente constitucionalmente eleito. O presidente cubano Miguel Díaz-Canel classificou a ação norte-americana como brutal, traiçoeira, inaceitável e vulgar, e afirmou que “a terra de Bolívar é sagrada e um ataque a ela é um ataque a todos os filhos dignos da América; por ela, estamos dispostos a dar nosso próprio sangue e vida”. Díaz-Canel declarou que os ataques buscam saquear as riquezas naturais do país sul-americano e atingir o que chamou de “bastião de resistência” desde a chegada de Hugo Chávez à presidência. Sobre a resposta popular, recordou que os venezuelanos já saíram às ruas em abril de 2002 contra uma tentativa de golpe patrocinada pelo governo norte-americano. O presidente cubano afirmou ainda que “os EUA não têm autoridade moral nem legal para sequestrar o presidente venezuelano de seu país, mas são responsáveis perante o mundo por sua integridade física”, acrescentando que a ameaça não se limitaria à Venezuela. “Fechemos fileiras, povos da América, para frear o avanço brutal do gigante das sete léguas que hoje paira sobre a região”, concluiu.
Horas depois do ataque, o presidente Lula publicou nota em rede social condenando os bombardeios e o sequestro, mas sem mencionar o nome do presidente venezuelano. “Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”, escreveu. Lula afirmou que caberia à ONU responder “de forma vigorosa” e declarou que o Brasil “condena essas ações” e estaria “à disposição” para promover “diálogo e cooperação”.
O governo venezuelano, por sua vez, publicou nota oficial declarando estado de Comoção Exterior e convocando mobilização nacional. A seguir, a nota na íntegra, conforme divulgada:
“A Venezuela manifesta seu repúdio, rejeita e denuncia perante a comunidade internacional à gravíssima agressão militar perpetrada pelo governo atual dos Estados Unidos da América contra o território e a população venezuelanos nas localidades civis e militares da cidade de Caracas, capital da República, e nos estados Miranda, Aragua e La Guaira.
Este ato constitui uma violação flagrante da Carta das Nações Unidas, especialmente de seus artigos 1 e 2, que consagram o respeito à soberania, a igualdade jurídica dos Estados e a proibição do uso da força.
Tal agressão ameaça a paz e a estabilidade internacional, concretamente da América Latina e do Caribe, e coloca em grave risco a vida de milhões de pessoas.
O objetivo deste ataque não é outro senão apoderar-se dos recursos estratégicos da Venezuela, em particular de seu petróleo e minerais, tentando quebrar pela força a independência política da Nação. Não o conseguirão. Após mais de duzentos anos de independência, o povo e seu governo legítimo mantêm-se firmes na defesa da soberania e do direito inalienável de decidir seu destino. A tentativa de impor uma guerra colonial para destruir a forma republicana de governo e forçar uma ‘mudança de regime’, em aliança com a oligarquia fascista, fracassará como todas as tentativas anteriores.
Desde 1811, a Venezuela enfrentou e venceu impérios. Quando, em 1902, potências estrangeiras bombardearam nossas costas, o presidente Cipriano Castro proclamou: ‘a insolente planta do estrangeiro profanou o sagrado solo da Pátria’. Hoje, com a moral de Bolívar, Miranda e de nossos libertadores, o povo venezuelano se levanta novamente para defender sua independência diante da agressão imperial.
Povo às ruas
O Governo Bolivariano chama todas as forças sociais e políticas do país a ativar os planos de mobilização e repudiar este ataque imperialista.
O povo da Venezuela e sua Força Armada Nacional Bolivariana, em perfeita fusão popular-militar-policial, encontram-se mobilizados para garantir a soberania e a paz. Simultaneamente, a Diplomacia Bolivariana de Paz apresentará as correspondentes denúncias ao Conselho de Segurança da ONU, ao secretário-geral dessa organização, à CELAC e ao MNOAL, exigindo a condenação e a responsabilização do governo norte-americano.
O presidente Nicolás Maduro dispôs todos os planos de defesa nacional para serem implementados no momento e nas circunstâncias adequadas, em estrito respeito ao previsto na Constituição da República Bolivariana da Venezuela, na Lei Orgânica sobre Estados de Exceção e na Lei Orgânica de Segurança da Nação.
Nesse sentido, o presidente Nicolás Maduro assinou e ordenou a implementação do Decreto que declara o estado de Comoção Exterior em todo o território nacional, para proteger os direitos da população, o pleno funcionamento das instituições republicanas e passar de imediato à luta armada. Todo o país deve se ativar para derrotar esta agressão imperialista.
Do mesmo modo, ordenou o imediato desdobramento do Comando para a Defesa Integral da Nação e dos Órgãos de Direção para a Defesa Integral em todos os estados e municípios do país.
Em estrito respeito ao artigo 51 da Carta das Nações Unidas, a Venezuela reserva-se o direito de exercer a legítima defesa para proteger seu povo, seu território e sua independência. Convocamos os povos e governos da América Latina, do Caribe e do mundo a mobilizarem-se em solidariedade ativa diante desta agressão imperial.
Como assinalou o Comandante Supremo Hugo Chávez Frías, ‘diante de qualquer circunstância de novas dificuldades, do tamanho que forem, a resposta de todos e de todas as patriotas… é unidade, luta, batalha e vitória’.”
O método do imperialismo
Em entrevista coletiva no sábado (3), o presidente do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, general Dan Caine, afirmou que a operação para sequestrar Maduro teria sido “meticulosamente planejada”, “tirando lições de décadas de missões”, e acrescentou que “sempre há uma chance de que sejamos encarregados de fazer esse tipo de missão novamente”. A declaração, por si só, indica que o governo norte-americano trata sequestros de dirigentes, incursões armadas e ações de “mudança de regime” como instrumentos permanentes de política externa.
O argumento apresentado por senadores e autoridades do próprio governo Trump também insere o ataque na tradição imperialista de produzir um supostamente “jurídico” para atos de guerra. Ao sustentar que o bombardeio teria servido para “proteger” agentes encarregados de executar um suposto mandado de prisão, o imperialismo apresenta um crime de agressão contra um país soberano como mera “operação policial”. Trata-se de fórmula conhecida na América Latina: acusações criminais fabricadas — frequentemente associadas ao narcotráfico — servindo de cobertura para intervenções militares, bloqueios e derrubada de governos.
A comparação com o caso do Panamá é esclarecedora. Em 1989, os Estados Unidos invadiram o país e capturaram Manuel Noriega, também sob justificativa de acusações relacionadas a drogas e corrupção. Noriega era, até então, um aliado útil, recrutado e utilizado em operações norte-americanas na região; quando passou a ser um obstáculo, foi transformado em inimigo e removido pela força. O mesmo expediente reaparece agora na Venezuela.
Quando Trump anuncia que os Estados Unidos irão “governar” a Venezuela até que uma “transição” seja concluída, ele dá forma explícita ao objetivo real da agressão: não se trata de “combate ao crime”, mas de impor tutela direta sobre um país latino-americano e controlar seu destino político e econômico. É exatamente esse ponto que permite compreender o caso venezuelano como capítulo recente de uma história mais ampla: a história de um século de intervenções do imperialismo norte-americano na América Latina e no Caribe, combinando ocupações militares, golpes de Estado, operações encobertas da CIA, financiamento de ditaduras e guerras por procuração.
A sequência descrita na Venezuela — cerco naval no Caribe, ataque ao território, restrições ao tráfego aéreo, sequestro do presidente e ameaça de nova onda de bombardeios — corresponde ao método que o imperialismo empregou repetidas vezes ao longo do século XX e avançou pelo século XXI: pressionar economicamente e militarmente, estimular a desestabilização política e, quando julga necessário, intervir de modo direto para impor uma “mudança de regime”. É a mesma linha que se expressou nas Guerras Bananeiras do início do século passado, nas derrubadas de governos eleitos durante a Guerra Fria, nas ditaduras do Cone Sul e nas invasões no Caribe e na América Central.
Por isso, para compreender o significado do ataque contra a Venezuela e do sequestro de Nicolás Maduro, é indispensável olhar para trás e reconstituir o histórico das principais intervenções no continente: os golpes planejados para proteger interesses de corporações, as operações coordenadas pela CIA, as invasões justificadas por “ameaça comunista”, as ditaduras sustentadas por financiamento externo e, em vários momentos, o sequestro direto de dirigentes tratados como obstáculos ao domínio imperialista.
Do Caribe ocupado às ‘Guerras Bananeiras’
A longa história de intervenções norte-americanas na região remonta, pelo menos, ao final do século XIX e início do século XX, quando os Estados Unidos conduziram as chamadas Guerras Bananeiras, uma série de ações militares na América Central e no Caribe para proteger interesses de corporações norte-americanas. O modelo consistia em desembarques, ocupações, proteção armada de portos e infraestrutura e imposição de governos confiáveis para o grande capital.
Em 1934, o governo Franklin D. Roosevelt anunciou a “Política da Boa Vizinhança”, prometendo não invadir nem ocupar países latino-americanos. A promessa não durou. A Guerra Fria ofereceu novo pretexto para intervenções: derrubar governos eleitos, perseguir organizações populares e instaurar ditaduras alinhadas ao imperialismo, sempre sob bandeira “anticomunista”.
A CIA, criada em 1947, transformou-se no principal instrumento desse tipo de operação, coordenando golpes, financiando partidos e grupos militares, infiltrando instituições e articulando campanhas de sabotagem econômica e política.
Brasil, 1945
O dia 2 de setembro de 1945 é reconhecido como a data final da Segunda Guerra Mundial, iniciada em 1939. A Itália já havia se rendido no ano anterior, e a Alemanha, no mês de maio. Depois de despejar duas bombas atômicas — a única vez, em toda a história humana, em que armas desse tipo foram disparadas contra a população civil —, os Estados Unidos obtiveram a rendição formal do Japão. Na Casa Branca estava Harry S. Truman, do Partido Democrata.
O fim da guerra abriu uma situação internacional marcada por convulsões políticas. Em 1945, houve revoluções, como na Albânia, e golpes militares nacionalistas, como na Venezuela. O imperialismo, depois do acerto de contas entre seus próprios membros, saía enfraquecido. Ainda assim — e justamente por isso — começou a reorganizar a ordem mundial com métodos de força. Já no ano final da guerra, os Estados Unidos e seus aliados atuavam para neutralizar processos que poderiam abrir caminho para maior independência nacional. Na América Latina, um dos casos centrais desse movimento ocorreu no Brasil.
O País estava há 15 anos sob o governo de Getúlio Dornelles Vargas, figura decisiva da história do País. Líder da Revolução de 1930, que encerrou a dominação direta das oligarquias agrárias e abriu caminho para um desenvolvimento industrial acelerado, Vargas instalou, em 1937, uma ditadura militar — o Estado Novo. O regime fechou o Congresso Nacional, cancelou eleições, proibiu partidos políticos e impôs uma nova Constituição. A repressão foi dura: não havia liberdade de organização, de crítica ou de imprensa; o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) operava a censura e a fabricação de uma imagem oficial do governo, enquanto o DOPS e a polícia política perseguiam adversários, sobretudo socialistas e dirigentes sindicais. Um símbolo desse período foi a deportação de Olga Benário Prestes — grávida — para a Alemanha nazista, onde acabaria assassinada num campo de concentração. Leon Trótski caracterizou o Estado Novo como uma ditadura “semifascista”.
Ao mesmo tempo, mudanças econômicas profundas aconteciam. A guerra desorganizou economias imperialistas e favoreceu, no Brasil, o processo de substituição de importações. A indústria cresceu rapidamente e a burguesia brasileira pôde buscar uma posição de relativa independência, ainda que limitada. Foi nesse quadro que se viabilizaram iniciativas como a fundação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
Apesar do caráter reacionário do Estado Novo, Vargas permanecia como liderança nacional capaz de concentrar apoio popular e, sob pressão dos acontecimentos, o governo começou a se mover em direção a mudanças que contrariavam interesses diretos do capital estrangeiro.
Um sinal disso foi a reaproximação entre Vargas e o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Do lado do PCB, essa aproximação expressava a política de colaboração com setores burgueses defendida pela burocracia stalinista. Do lado do governo, indicava uma inflexão: em 1945, Vargas legalizou o PCB e concedeu anistia a presos políticos, incluindo Luiz Carlos Prestes. O PCB, por sua vez, passou a apoiar a candidatura de Vargas.
A própria experiência posterior — o governo Vargas de 1950 a 1954, viabilizado pela mobilização popular — mostrou que a preocupação do imperialismo tinha fundamento: nesse período, Vargas tomaria iniciativas de impacto, como a criação da Petrobrás.
Antecipando esse desenvolvimento, o imperialismo se moveu para derrubar Vargas em 1945. Embora estivesse comprometido com o fim formal do Estado Novo, Vargas pretendia concorrer às eleições daquele ano. A derrubada veio antes da votação.
O golpe ocorreu em 29 de outubro de 1945, apenas dois meses após o fim da guerra e poucos dias antes das eleições previstas para dezembro. O estopim foi a demissão do ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra. Dutra voltou-se contra Vargas, encabeçou sua derrubada e, em seguida, assumiu a presidência com apoio dos setores conservadores e da embaixada dos Estados Unidos.
O governo Dutra, nos quatro anos seguintes, operou como instrumento direto do imperialismo. No plano internacional, rompeu relações diplomáticas com a União Soviética e incorporou o Brasil ao Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), consolidando a América Latina como zona de influência norte-americana. No plano econômico, promoveu uma abertura destrutiva, com liberação generalizada de importações. O resultado foi a rápida queima das reservas cambiais acumuladas durante a guerra — estimadas em mais de US$700 milhões —, esgotadas em menos de dois anos. Esse movimento travou o setor industrial nascente e empurrou o País de volta para a dependência externa.
No terreno político, Dutra desencadeou repressão contra a oposição popular e uma perseguição sistemática aos comunistas. Greves foram proibidas, dirigentes sindicais perseguidos e a censura voltou a ser utilizada como instrumento de controle. Em 1947, o PCB foi colocado na ilegalidade, seus parlamentares tiveram os mandatos cassados, e centenas de militantes foram presos.
Nicarágua, 1947
O golpe de Estado de 27 de maio de 1947, na Nicarágua, foi um dos primeiros golpes militares bem-sucedidos na América Latina no período do pós-guerra e consolidou, sob tutela direta do imperialismo norte-americano, o regime comandado por Anastasio Somoza. A derrubada do presidente civil Leonardo Argüello ocorreu apenas 26 dias após sua posse e marcou a manutenção do controle efetivo da Guarda Nacional por Somoza, que já governava o país na prática desde os anos 1930.
A Nicarágua viveu, nas primeiras décadas do século XX, uma situação de forte convulsão social ligada à pressão imperialista na região. Nesse processo, ganhou destaque Augusto César Sandino, engenheiro de minas que, após contato com o movimento nacionalista no México e em Honduras, tornou-se o principal líder guerrilheiro do país, organizando um exército para combater forças reacionárias e a ocupação estrangeira. Em 1933, as tropas norte-americanas se retiraram da Nicarágua, e Sandino assinou um acordo de paz, que levou ao desarmamento de suas forças. Em 1935, Sandino foi assassinado por Anastasio Somoza, então chefe da Guarda Nacional.
No ano seguinte, em 1936, Somoza liderou um golpe contra o presidente Juan Bautista Sacasa. A junta militar convocou uma eleição-farsa que garantiu a vitória de Somoza, derrotando o candidato liberal Leonardo Argüello Barreto. A partir daí, a Nicarágua se consolidou como um dos principais parceiros dos Estados Unidos na América Central. Franklin D. Roosevelt chegou a sintetizar a relação com a frase: “talvez Somoza seja um filho da puta, mas é o nosso filho da puta”.
Sob Somoza, o Estado nicaraguense foi convertido em instrumento de negócios do próprio ditador e de empresas norte-americanas. Riquezas como ouro, borracha e madeira foram entregues a interesses estrangeiros em um esquema que garantia ao governante “taxas executivas” e “comissões presidenciais”. O Banco Nacional, sob domínio norte-americano, controlava a exploração e a exportação por meio da Corporação de Desenvolvimento da Borracha. Somoza também acumulava recursos por meio de propinas em atividades ilegais, como jogos de azar, prostituição e destilação de álcool. Ao final da década de 1940, a fortuna do ditador era estimada em 400 milhões de dólares.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Somoza cedeu ao governo norte-americano o porto de Corinto, expulsando pequenos proprietários e realocando-os para áreas precárias. O porto foi utilizado como base naval dos Estados Unidos. Nesse mesmo período, Somoza declarou guerra aos alemães residentes no país e se apropriou de parte de suas propriedades.
A partir de 1944, em meio à campanha internacional em torno da “democracia”, Somoza anunciou que realizaria uma abertura controlada do regime. A situação, porém, era instável: a tendência geral dos trabalhadores e camponeses era o enfrentamento direto com a ditadura, que funcionava como um regime oligárquico voltado a enriquecer um círculo restrito e a submeter o país aos interesses norte-americanos. A insatisfação social se expressou, inclusive, no interior do próprio Partido Nacional Liberal (PNL), dirigido por Somoza. Naquele ano, três membros influentes do partido — Carlos Pasos, Carlos Castro Wassmer e Manuel Codero Reyes — redigiram uma crítica formal ao regime. Após a morte de Codero Reyes, os dissidentes distribuíram panfletos em seu funeral denunciando a ditadura e assinaram como “Liberais Independentes”, passo que levaria à formação do Partido Liberal Independente (PLI). O PLI passou a reunir setores diversos, inclusive antigos apoiadores de Somoza e agrupamentos como a Frente Juvenil Democrática (FJD).
Em 27 de junho de 1944, estudantes universitários de Manágua realizaram uma assembleia em solidariedade aos estudantes da Guatemala, que enfrentavam uma junta militar golpista. Apesar do pequeno número de universitários na capital, mais de 2.000 pessoas se reuniram em apoio ao ato. Houve marcha pelas ruas e, no início da noite, protesto em frente à academia militar. A Guarda Nacional, diretamente controlada por Somoza, reprimiu a manifestação com gás lacrimogêneo e prendeu cerca de 500 pessoas. Em 29 de junho, um grupo de mulheres, muitas delas parentes e amigas dos presos, marchou exigindo libertação imediata. No mesmo dia, estudantes, camponeses e profissionais de León redigiram carta a Somoza pedindo a libertação dos detidos. Sindicalistas também pressionaram o ditador pela soltura de trabalhadores presos após os protestos.
Com o risco de uma crise mais profunda, o novo presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, decidiu pressionar pela aceleração da abertura, temendo que o país entrasse em situação revolucionária. Foi estabelecido um acordo: Somoza não seria candidato, mas manteria o controle da Guarda Nacional. Como parte desse arranjo, Somoza declarou apoio a Leonardo Argüello, antigo rival, que acabou eleito presidente.
O mandato de Argüello, porém, foi um dos mais breves da história política do continente. Embora o novo presidente estivesse alinhado, de modo geral, à política norte-americana para a Nicarágua, a presença de uma força armada sob controle de Somoza era uma ameaça permanente ao governo civil. Assim que tomou posse, Argüello indicou que faria reformas nas forças armadas, o que enfraqueceria o poder de Somoza.
A resposta veio rapidamente. Em 27 de maio de 1947, apenas 26 dias após a posse, Somoza liderou o golpe que derrubou Argüello. Para evitar atritos com o imperialismo, Somoza não assumiu formalmente a presidência naquele momento. O país foi governado por aliados do somozismo e dos norte-americanos: os interinos Benjamín Lacayo Sacasa e Manuel Fernando Zurita, além do presidente Víctor Manuel Román y Reyes. Em 1950, com o regime ainda sob controle rígido da Guarda Nacional, Somoza venceu as eleições e voltou oficialmente ao poder.
Somoza permaneceu no comando por mais seis anos, sustentado pelos Estados Unidos, até ser assassinado em 1956 pelo poeta Rigoberto López Pérez. Após sua morte, seus filhos, Luis Somoza e Anastasio Somoza Debayle, assumiram o controle da ditadura, que se estenderia até 1979, quando foi derrubada pela Revolução Sandinista.
O golpe de 1947, ao manter a ditadura e impedir qualquer tentativa de desmilitarização do regime, mostrou como o imperialismo norte-americano operava na região: quando a abertura ameaçava ampliar o espaço de mobilização popular e enfraquecer o aparato repressivo, a saída foi sustentar a oligarquia e o controle militar do Estado.
Peru, 1948
No Peru, em 1948, o presidente José Luis Bustamante y Rivero, eleito em 1945 com apoio de uma coalizão ampla e reformista, foi deposto por um golpe militar liderado pelo general Manuel A. Odría. O novo regime passou a ser chamado de “Revolução Restauradora” e consolidou uma ditadura que duraria até 1956.
O governo Bustamante enfrentou forte oposição da oligarquia, do Congresso aprista e de setores das Forças Armadas, em meio a crises políticas sucessivas. A instabilidade se agravou com o assassinato do diretor do jornal La Prensa, episódio que contribuiu para elevar a tensão no ambiente institucional. Apesar de iniciativas associadas à soberania marítima, à reforma agrária e ao controle estatal do petróleo, Bustamante acabou derrubado, e Odría assumiu o comando do país por meio do aparato militar.
Venezuela, 1945-1958
Na Venezuela, em 1945, um movimento civil-militar depôs o governo de Isaías Medina Angarita e levou ao poder o partido Ação Democrática (AD), inaugurando o período conhecido como “Trienio Adeco”. Foi uma fase marcada por reformas políticas, com a implementação do sufrágio universal e a promulgação da Constituição de 1947. Ao mesmo tempo, o período foi instável: houve sete levantes militares e cresceu a polarização entre a AD e setores conservadores, muitos deles ainda ilegais após a ruptura de 1945.
Nas eleições gerais de 1947, o intelectual e romancista Rómulo Gallegos, candidato da AD, venceu de maneira expressiva e tomou posse em 15 de fevereiro de 1948, tornando-se o primeiro presidente venezuelano eleito por voto direto, universal e secreto. A posse representou um marco, mas o novo governo enfrentou resistências profundas desde o início, tanto da oposição tradicional quanto no interior do próprio campo governista, com fissuras e tensões com aliados militares considerados leais, como o coronel Carlos Delgado Chalbaud.
A crise se aprofundou com medidas econômicas nacionalistas. Em julho de 1948, foi aprovada a Reforma da Lei do Imposto sobre a Renda, impondo uma taxa adicional de 50% sobre lucros extraordinários obtidos pelas empresas, em especial as petrolíferas estrangeiras. A medida gerou forte reação de grandes grupos econômicos e aumentou a pressão sobre o governo.
No plano político-militar, cresceu o descontentamento entre oficiais vinculados ao golpe de 1945, especialmente Carlos Delgado Chalbaud, Marcos Pérez Jiménez e Luis Llovera Páez. Esses setores exigiam que Gallegos expulsasse do país Rómulo Betancourt, desmobilizasse as milícias populares da AD e reestruturasse o gabinete, substituindo dirigentes partidários por figuras “independentes”. Gallegos recusou-se a atender às exigências, confiando na lealdade dos comandantes — confiança que se mostraria equivocada.
Em 21 de novembro de 1948, diante de rumores de golpe iminente, o governo suspendeu as garantias constitucionais. Três dias depois, em 24 de novembro, Gallegos foi deposto por um golpe militar liderado por Delgado Chalbaud, Pérez Jiménez e Llovera Páez. O presidente foi preso e, em 5 de dezembro, expulso do país com sua família. O presidente do Congresso Nacional, Valmore Rodríguez, tentou organizar um governo provisório em Maracay, mas a iniciativa fracassou.
A junta militar que assumiu o poder era composta por antigos aliados do processo iniciado em 1945. Delgado Chalbaud, então ex-ministro da Defesa, presidiu a junta, tendo ao seu lado Pérez Jiménez e Llovera Páez. Integraram também civis como Aurelio Arreaza Arreaza, Pedro Ignacio Aguerrevere, Rubén Corredor e Amenodoro Rangel Lamus. A justificativa oficial alegou “incapacidade do governo em lidar com a crise” e apontou um suposto risco de radicalização política por parte da AD.
Internacionalmente, os Estados Unidos negaram envolvimento imediato, mas houve apoio tácito à derrubada de Gallegos. Poucos dias após o golpe, Delgado Chalbaud declarou ao embaixador norte-americano que Gallegos era manipulado por Betancourt e que a AD pretendia instaurar um regime marxista, mesmo ao custo de uma guerra civil.
A junta prometeu eleições, mas avançou rapidamente com repressão. Em 4 de dezembro de 1948, dissolveu o Congresso, as assembleias legislativas e os conselhos municipais, ampliou a censura e intensificou a perseguição a opositores.
Em 1950, após o assassinato de Delgado Chalbaud, a junta nomeou um civil como chefe de governo: Germán Suárez Flamerich, então embaixador no Peru. A partir de 27 de novembro de 1950, o grupo passou a se autodenominar “Junta de Governo”, embora o poder real permanecesse concentrado nas mãos de Pérez Jiménez e Llovera Páez.
Em 1952, a tentativa de restaurar legitimidade por meio de eleições foi frustrada. Quando resultados parciais apontaram vitória da oposição, os militares anularam o pleito e impuseram a vitória de Pérez Jiménez, que governou como ditador até 1958.
Haiti, 1950
Em 1950, um golpe militar no Haiti reforçou a tendência que se consolidava na região no pós-guerra: a derrubada de arranjos civis e a imposição de governos assentados no aparato militar, com repressão política e reorganização do Estado a partir dos quartéis. O episódio confirmou, no Caribe, a escalada de golpes e ditaduras que marcaria as décadas seguintes, criando condições para novas intervenções e para o aprofundamento da tutela imperialista sobre o país.
Guatemala, 1954
Em 1954, o presidente guatemalteco Jacobo Árbenz Guzmán, eleito democraticamente, foi derrubado por rebeldes locais apoiados pela CIA sob o governo Eisenhower. A reforma agrária em curso atingia diretamente a United Fruit Company, proprietária de cerca de 40% das terras da Guatemala.
Sob acusação de proximidade com a União Soviética, a CIA organizou a Operação PBSUCCESS, treinando e financiando grupos antigovernamentais liderados por Carlos Castillo Armas e chegou a considerar o assassinato de Árbenz. Em 27 de junho de 1954, a pressão culminou na renúncia do presidente, que buscou refúgio e exílio. O resultado foi a instalação de ditadura militar e a abertura de quase quatro décadas de guerra civil (1960–1996), com mais de 200 mil mortos e desaparecidos.
Cuba, 1961
Em 1959, Fidel Castro chegou ao poder após derrubar Fulgencio Batista, ditador apoiado pelo imperialismo. A reação veio rapidamente: a CIA treinou exilados cubanos para invadir a ilha e derrubar o governo revolucionário. Em 1961, John F. Kennedy autorizou a invasão da Baía dos Porcos, que fracassou de modo retumbante. A operação foi descrita como mal planejada, com vazamentos prévios e erros de execução. O impacto imediato foi fortalecer o governo revolucionário e aproximar Cuba da União Soviética, preparando o terreno para a crise de 1962.
Brasil, Equador, Bolívia: golpes e sabotagens nos anos 1960 e 1970
O padrão repetiu-se em diversas frentes.
No Brasil, João Goulart, empossado em 1961, buscou reformas sociais e econômicas, manteve relações com Cuba e nacionalizou uma filial da empresa norte-americana ITT. Em resposta, a CIA financiou políticos pró-EUA e apoiou grupos anticomunistas, num processo que culminou no golpe militar de 1964 e na instauração de ditadura militar alinhada aos Estados Unidos até 1985.
No Equador, o imperialismo voltou-se contra governos considerados próximos de Cuba e do bloco soviético. Um ex-oficial da CIA, Philip Agee, relatou que a agência infiltrou organizações sociais, movimentos políticos, sindicatos e veículos de comunicação e recrutou agentes no interior do Estado para sabotar o governo de José María Velasco Ibarra até derrubá-lo. Velasco foi substituído e, em seguida, Carlos Julio Arosemena, por sua relação com Cuba, foi derrubado em golpe militar em 11 de julho de 1963, também atribuído à operação patrocinada pela CIA.
Na Bolívia, houve financiamento encoberto para influenciar a política nacional e apoiar o golpe de novembro de 1964, liderado por René Barrientos contra Víctor Paz Estenssoro. Nos anos 1970, o alvo tornou-se Juan José Torres, que nacionalizara empresas norte-americanas. Em 1971, o embaixador norte-americano comunicou a necessidade de apoiar opositores e o imperialismo destinou recursos secretos para financiar lideranças militares e políticas, contribuindo para o golpe de Hugo Bánzer, cujo governo recebeu suporte posterior.
República Dominicana, 1965
Em 1965, os Estados Unidos intervieram militarmente na República Dominicana durante guerra civil. O pretexto inicial foi resgatar norte-americanos em risco e impedir uma “segunda Cuba”. O objetivo real foi sufocar um levante cívico-militar que exigia retorno do presidente eleito Juan Bosch, derrubado em 1963. Os Estados Unidos enviaram dezenas de milhares de soldados e ajudou a instalar um governo alinhado, marcado por repressão, desaparecimentos e assassinatos de opositores.
Chile, 1973
Salvador Allende foi eleito presidente do Chile em 1970 e tomou posse em 3 de novembro daquele ano. Em 1971, o governo avançou com a nacionalização do cobre, setor estratégico da economia chilena, além de outras medidas econômicas e sociais. Ao longo de 1972 e 1973, o país entrou em forte crise política, com paralisações e confrontos entre governo e oposição, enquanto setores militares ampliavam sua presença na cena política.
Em documentos desclassificados anos depois, o próprio governo norte-americano reconheceu ações de ingerência no Chile: a Casa Branca e a CIA financiaram iniciativas para enfraquecer o governo Allende, estimular a oposição e abrir caminho para uma derrubada do presidente. Essa política foi conduzida durante a administração Richard Nixon, com participação do secretário de Estado Henry Kissinger.
O golpe foi executado em 11 de setembro de 1973. As Forças Armadas e os Carabineros tomaram pontos estratégicos do país e cercaram o Palácio de La Moneda, sede do governo em Santiago. Naquele dia, a aviação bombardeou La Moneda. Allende permaneceu no palácio durante a ofensiva e foi morto no interior do edifício. Após o golpe, foi instalada uma junta militar composta pelo comandante do Exército, Augusto Pinochet, pelo comandante da Marinha, José Toribio Merino, pelo comandante da Força Aérea, Gustavo Leigh, e pelo diretor-geral dos Carabineros, César Mendoza. A junta dissolveu o Congresso, suspendeu garantias constitucionais, impôs toque de recolher e proibiu ou restringiu atividades políticas e sindicais.
A ditadura de Pinochet consolidou-se nos meses seguintes. Em outubro de 1973, ocorreu a operação conhecida como “Caravana da Morte”, quando uma comitiva militar percorreu cidades do Chile e realizou execuções de presos políticos. Nos primeiros dias após o golpe, milhares de pessoas foram detidas em estádios e quartéis. A repressão passou a operar com órgãos de inteligência e segurança dedicados à perseguição política. Em 1974, foi criada a DINA (Dirección de Inteligencia Nacional), chefiada por Manuel Contreras; em 1977, a DINA foi substituída pela CNI (Central Nacional de Informaciones).
A repressão incluiu prisões em massa, tortura, assassinatos e desaparecimentos forçados. A Comissão Nacional da Verdade e Reconciliação (Comissão Rettig), criada em 1990 e com relatório publicado em 1991, registrou mais de 2.000 casos de mortos e desaparecidos por violações de direitos humanos durante o período ditatorial. A Comissão Nacional sobre Prisão Política e Tortura (Comissão Valech), instituída em 2003, reconheceu dezenas de milhares de casos de prisão política e tortura.
A ditadura também integrou a coordenação repressiva internacional entre regimes militares do Cone Sul, conhecida como Operação Condor, formalizada a partir de 1975, com cooperação entre aparelhos de segurança para vigilância, sequestro e eliminação de opositores em diferentes países. Entre os casos mais conhecidos de ações fora do Chile estão o assassinato do ex-comandante do Exército Carlos Prats, em Buenos Aires, em 1974, e o assassinato do ex-chanceler Orlando Letelier, em Washington, em 1976, em atentado atribuído a agentes ligados à DINA.
O regime de Pinochet durou até 1990. Em 1980, a ditadura aprovou uma nova Constituição em plebiscito. Em 1988, foi realizado novo plebiscito para decidir se Pinochet permaneceria no poder por mais um período; a opção “Não” venceu, e o país realizou eleições presidenciais e parlamentares em 1989. Patricio Aylwin tomou posse em 11 de março de 1990, marcando o fim formal da ditadura. Pinochet permaneceu como comandante do Exército até 1998 e, depois, assumiu o cargo de senador vitalício. Em 1998, foi preso em Londres por ordem judicial estrangeira, retornou ao Chile em 2000 e morreu em 2006, com processos ainda em curso na Justiça chilena.
Panamá,1989
Em 20 de dezembro de 1989, os Estados Unidos invadiram o Panamá, na operação batizada de “Justa Causa”, e derrubaram o governo de fato comandado pelo general Manuel Antonio Noriega Moreno. A agressão foi ordenada pelo então presidente George Bush (pai) e apresentada como uma ação de “combate ao tráfico de drogas”. Em 3 de janeiro de 1990, menos de duas semanas após o início da invasão, Noriega já havia sido sequestrado pelas tropas norte-americanas e levado para os Estados Unidos, onde seria submetido a julgamento em tribunais do próprio país invasor.
O caso é exemplar porque Noriega não era um adversário histórico do imperialismo. Durante anos, foi um dos principais aliados do imperialismo na América Central, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, quando os EUA atuavam para esmagar a Revolução Nicaraguense e conter qualquer processo inspirado na vitória sandinista, como ocorreu em El Salvador. Noriega, inclusive, operou como informante da CIA na região e facilitou operações clandestinas, incluindo compra e venda de armas e equipamentos militares destinados a forças anticomunistas.
A virada ocorreu quando Noriega passou a sustentar uma postura mais independente diante dos EUA, tocando num ponto decisivo: o controle estratégico do Canal do Panamá e o peso do país na engrenagem militar e econômica do imperialismo no continente. Noriega tornou-se comandante das forças armadas panamenhas em 1983 e, a partir daí, passou a governar o país na prática. A primeira eleição após a ditadura militar iniciada em 1968 ocorreu em 1984, já sob denúncias de fraude. Em 1985, o presidente renunciou, aprofundando a crise política que se arrastou até 1989; assumiu então o vice, Eric Arturo Del Valle, enquanto a campanha para remover Noriega ganhava impulso.
A escalada foi conduzida por etapas, com o mesmo método aplicado repetidas vezes na América Latina. Em 1987, os EUA congelaram a ajuda econômica e militar ao Panamá. Em 1988, um tribunal norte-americano indiciou Noriega em Miami, com acusações de extorsão, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Em abril de 1988, Reagan invocou a lei de emergência internacional e apertou o cerco econômico: congelamento de ativos do governo panamenho em bancos, retenções vinculadas ao uso do Canal e proibição de comércio de agências norte-americanas, empresas e indivíduos com o governo Noriega. Em paralelo, a pressão política e os movimentos golpistas se intensificaram no interior do país.
Em 1989, ocorreu nova eleição. Guillermo Endara, candidato da oposição apoiado pelo imperialismo, foi declarado vencedor. Noriega anulou o resultado e denunciou a intervenção estrangeira, que já se expressava no bloqueio e na movimentação militar. Os EUA, então, ampliaram o envio de tropas para suas bases na zona do Canal. Em dezembro de 1989, a Assembleia Nacional panamenha concedeu poderes especiais a Noriega, nomeando-o chefe do Gabinete de Guerra e declarando estado de guerra contra os Estados Unidos. Foi então que o imperialismo lançou a invasão, com força esmagadora: cerca de 26 mil soldados contra um Exército panamenho estimado em 12 mil.
Com o país sob ocupação, Noriega foi sequestrado e levado a Miami. O julgamento correu entre setembro de 1991 e abril de 1992. Em 10 de julho de 1992, Noriega foi condenado a 40 anos de prisão nos Estados Unidos, considerado culpado das acusações apresentadas pelo tribunal norte-americano.