August Macke é um dos mais destacados pintores do expressionismo alemão, ao lado de artistas como Ernst Kirshner, Franz Marc e George Grosz. Membro do grupo “O Cavaleiro Azul”, Macke situa-se no segundo período do movimento expressionista, responsável por levar a pintura alemã à abstração. Enquanto que a maioria de seus colegas enveredaria por uma via original de abstracionismo, independente daquela trilhada pelos artistas do cubismo francês, a obra de Macke é uma exceção. Influenciado pela Escola de Paris, seria ligado a esta tradição que conceberia suas obras, em uma síntese particular das técnicas francesas com o desenvolvimento alemão da pintura moderna.
Essa evolução rumo à pintura abstrata não foi um mero acaso, mas um fenômeno geral da época. Era produto da grande inquietação espiritual em que estava imersa a sociedade alemã no marco de um dos períodos mais horrendos da história do capitalismo alemão.
A unificação alemã e as artes
O processo de desenvolvimento político, econômico e social alemão iniciou-se com a vitória da Prússia na Guerra Franco-Prussiana, em 1870 e atingiria um de seus pontos culminantes com a deflagração da Primeira Guerra Mundial, até então, o conflito mais avassalador já presenciado pela humanidade. Deste grande êxito militar, que na França desencadearia a Comuna de Paris; nos Estados Alemães, valeria a nomeação de Wilhelm I a deutcher kaiser do II Reich alemão.
A unificação das nações germânicas era parte do processo de desenvolvimento da burguesia alemã, empenhada em fortalecer o capitalismo nacional e erguer a Alemanha ao nível das mais avanças potências imperialistas européias.
Para isso, impulsionou um violento desenvolvimento industrial baseado em uma exploração selvagem dos operários alemães. Em cerca de três décadas, o Império Alemão saltou ao nível produtivo de gigantes econômicos como Inglaterra e Estados Unidos, que acentuou todas as suas contradições internas.
Este espantoso crescimento econômico rapidamente deu lugar a uma política expansionista agressiva, visando anexar novos territórios e colônias, durante o reinado do kaiser Wilhelm II.
As artes do período se desenvolveriam sempre sob a forte pressão conservadora desta emergente e frágil burguesia. Uma ideologia fortemente nacionalista dava o tom da política oficial, arrebanhando grandes setores da pequena-burguesia e aristocracia operária.
O movimento operário, por sua vez, esforçava-se, na virada do século, por conquistar um espaço político e pressionar o governo por suas reivindicações, mas via-se esmagado pela diretriz geral do kaiser de não realizar nenhuma concessão às massas, relegadas a viverem em situação absolutamente miserável e parcos direitos trabalhistas.
A sensação subjetiva de isolamento das camadas médias, reflexo de uma objetiva falta de perspectivas sociais e políticas, iria originar um movimento artístico cujo pessimismo e insegurança dariam o tom principal de suas produções.
As artes na Alemanha na virada do século XIX, ganhariam seu impulso inicial através das diversas “secessões” que se formariam em diferentes cidades a partir de toda década de 1890. Grupos que reuniam artistas principalmente do simbolismo alemão.
A tendência à unificação das características locais das artes nos diferentes Estados alemães, em uma expressão realmente nacional, se expressaria, pela primeira vez, na formação do Jugendstil, edição nórdica do Art Noveau francês, que em solo alemão tomaria características próprias e se espalharia por todo o império. Além dele – estilo essencialmente decorativo -, tanto a tradição do romantismo, quanto do simbolismo, seriam peças fundamentais para a formação da vanguarda alemã do século XX.
O expressionismo
Em todo território alemão, desde os primeiros anos do novo século, centenas de artistas adotariam as técnicas modernas vindas principalmente da França, influenciados tanto pelo simbolismo, quanto pelo impressionismo.
Posteriormente, o pós-impressionismo, o fauvismo, o cubismo e o futurismo dariam à parcela mais radical dos artistas alemães, a técnica, os temas, e a agressividade que seriam característicos do futuro estilo expressionista.
Poderia se dizer que o expressionismo foi mais um fenômeno de época do que um “movimento” propriamente dito. Tendência extremamente heterogênea que foi a edição alemã dos movimentos modernistas que surgiam simultaneamente em diversos países. Era mais precisamente um estado espiritual de impotência e inquietação frente aos desafios apresentados por sua época. Daí sua tendência marcadamente escapista, que se traduziria em uma pintura fortemente emocional e subjetiva, desembocando em uma tradição abstrata própria, emotiva e fatalista.
Quando se modificam os fatores objetivos ao redor destes artistas, se modificaria também sua arte. Uma terceira geração expressionista apresentará trabalhos cada vez mais políticos, apoiando as mobilizações operárias e encontrando um terreno social mais sólido onde se apoiar.
Grosso modo, divide-se o expressionismo em três períodos principais. O primeiro, representado pelo grupo A Ponte, de 1905, um grupo pioneiro que avançaria para obras cada vez mais críticas e agressivas contra os vícios da sociedade alemã; o segundo, O Cavaleiro Azul, grupo formado às vésperas da Primeira Guerra, de fortes traços subjetivos e místicos, que levariam a uma pintura abstrata; e um terceiro, posterior à guerra, e conhecido como Nova Figuração, período mais radical de todos, marcadamente político e de denúncia social. A obra de August Macke, representante da segunda geração, é fruto de uma combinação original dessa sensibilidade expressionista fortemente submetida à tradição da pintura francesa.
Anos de formação: impressionismo e período fauve
Nascido em 1887 em uma família da pequena burguesia alemã, August Macke desde cedo teve nas artes plásticas seu principal interesse. Ainda na adolescência trabalhou desenvolvendo cenários para um grupo teatral, mas ao receber um convite para integrar formalmente a trupe, apesar das perspectivas promissoras, declinou do pedido e tomou definitivamente a decisão pela pintura. Aos 16 anos já era um pintor promissor, influenciado por artistas importantes do simbolismo alemão, como Arnold Böcklin.
Aos 20 anos, no entanto o rumo de sua arte se modificaria completamente após sua primeira viagem à Paris, em 1907. Lá conheceria de perto a tão falada pintura impressionista e ficaria fascinado, sobretudo, pelos trabalhos de Eduard Manet e Claude Monet. Do primeiro, se interessaria pela abordagem naturalista, não idealizada e não alegórica de seus quadros, uma grande novidade para a época. Do segundo, ficaria espantado pela riqueza da captação da luz de maneira minuciosa em diversas séries de telas expostas nos museus franceses.
Esta seria a primeira de uma série de viagens que realizaria à Paris para acompanhar as últimas manifestações da vanguarda francesa. Este vivo interesse do pintor pelo modernismo da Escola de Paris, acabaria definindo de maneira fulminante os rumos futuros da arte de August Macke.
Passaria então todo o ano seguinte exercitando-se dentro de um método de estudo próprio, retratando paisagens ao ar livre e cenas do cotidiano da pequena-burguesia alemã, passeios pelos boulevards, espetáculos de circo e cenas de rua, temas que nunca abandonaria.
Em 1909, depois de prestar um ano de serviço militar e já casado, realizaria sua segunda viagem à França e tomaria conhecimento pela primeira vez do movimento fauve. A agressividade das pinturas fauvistas de Matisse, Derain, Market e companhia, com sua utilização não descritiva das cores e a bidimensionalidade das composições, promoveriam a segunda revolução da pintura de Macke, que então passaria a se interessar cada vez mais pelos problemas formais das obras.
A transição de um período para outro é notória ao se comparar dois de seus trabalhos. Retrato com maçãs: Mulher do Artista, de 1909, e Nu com Colar de Coral, do ano seguinte, revelam a evolução da obra de Macke. De um cuidadoso retrato impressionista de sua esposa, com uma rigorosa captação de luz, o pintor evoluiria para uma abordagem esquemática e não descritiva da figura humana, cuja ênfase recai na combinação cromática e jogos de cores de característicos do fauvismo.
O Cavaleiro Azul
O passo seguinte da pintura de Macke era um reflexo quase que linear da evolução da pintura francesa daqueles anos, em uma leitura pessoal destas inovações. O sentido que tomava seus trabalhos era claro: a conquista da abstração.
Em 1910, Macke visita uma exposição onde encontra duas litogravuras que o impressionam vivamente. Ele imediatamente procura conhecer o autor de tais obras. Era o pintor Franz Marc, sete anos mais velho que ele. Em pouco tempo eles tornam-se grandes amigos, e, em 1911, quando Marc ingressa no grupo expressionista O Cavaleiro Azul, convence seu amigo a participar também. Também faziam parte do grupo Gabriele Münter, Alexei von Jawlenski e o grande teórico e influenciador destes artistas, o russo Vassili Kandinski.
O Cavaleiro Azul era um grupo também heterogêneo, que agrupava artistas com interesses práticos em organizar exposições coletivas, mas que acabou estendendo os laços entre os artistas em torno de uma concepção artística mais ou menos comum, influenciada aos ideais filosóficos místicos de Kandinski. A forte ênfase que o pintor russo dava à busca de ideais transcendentes na pintura, encontraria na Alemanha terreno bastante fértil, dada sua tradição pregressa bastante ligada ainda ao romantismo e ao simbolismo. Ainda que nem todos aderissem integralmente ao programa artístico de Kandinski, o grupo seria a espinha dorsal do desenvolvimento do expressionismo alemão da primeira para a segunda fase. De uma pintura marcadamente figurativa, realista e crítica – personificada pelo grupo A Ponte –, para um expressionismo já abstrato, mas de forte conteúdo simbólico e alegórico.
Macke apesar de ter se associado ao grupo, era um elemento estranho as estas idéias e nunca aceitaria bem essa orientação. O caminho artístico que trilharia, apesar de tender fortemente à abstração, estaria baseado na tradição abstrata francesa, que, em sua essência, nada tinha a ver com o abstracionismo “espiritual” preconizado por Kandinski.
Um alemão da Escola de Paris
Nessa mesma época, Macke amadurecia em um caminho próprio, influenciado pelos desenvolvimentos da arte francesa. Se o fauvismo representava uma utilização “abstrata” das cores, não descritiva; o cubismo daria o passo seguinte, tornando abstratas também as formas, com a dissolução dos objetos no espaço pictórico até a abolição completa do tema na pintura. O futurismo italiano se encarregaria de dar movimento e ritmo a estas composições estáticas do cubismo francês. Do uso facetado da imagem, que possuía implicações próprias, o orfismo fecharia o ciclo da tradição formal francesa, no sentido da completa abstração na pintura. Era a conclusão lógica do caminho iniciado pelos pintores impressionistas em finais do século XIX.
Macke acompanhou cuidadosamente cada uma destas etapas, ainda que nunca tivesse se sentido a vontade a abolir por completo o tema em suas obras. Esta era outra de suas características pessoais. A busca de um equilíbrio entre os diversos elementos compositivos da pintura, sem nunca levar a extremos técnicos um único elemento formal. Igreja de Santa Maria na Neve, de 1911, revela já suas primeiras influências cubistas, que se manifestariam plenamente na composição Grande Vitrine Iluminada, de 1912. Garotas Banhando-se com Cidade ao Fundo, de 1913 é um estudo das técnicas futuristas, que seriam assimiladas em suas obras posteriores. Sua amizade com o pintor Delaunai, pai do orfismo, originaria pinturas completamente abstratas, fenômeno que, ainda que episódico, confirmava o caminho tomado por Macke em sua evolução artística, onde a presença de um “tema”, seria meramente acessório.
Esta característica seria a chave fundamental para o entendimento de suas divergências com os membros “místicos” de O Cavaleiro Azul. Enquanto o abstracionismo de Kandinski, Marc e companhia representava a busca pela expressão de um novo conteúdo, pretensamente mais profundo, uma tentativa de retratar “outras realidades da alma”; a pintura “figurativa” de Macke era abstrata no conteúdo. Um estudo puramente formal em torno da composição de um quadro. Caminho que só foi trilhado pelos franceses dentro da tradição da vanguarda anterior à Primeira Guerra. Daí que seu expressionismo nada tivesse a ver com o expressionismo de seus colegas, sempre subordinado a um conteúdo determinado.
Apesar destas diferenças, ele permanece no grupo até 1912, período em que participa de duas exposições coletivas e colabora na publicação do almanaque O Cavaleiro Azul. Essa parceria, no entanto acabaria com a ruptura definitiva, endossada por uma pintura de Macke ridicularizando a filosofia espiritual de Kandinski, em seu pequeno pastiche satírico Zombaria ao Cavaleiro Azul.
O expressionismo da Renânia
Depois de seu afastamento do grupo, Macke mudou-se com sua família para a Renânia, onde surpreendentemente encontraria um terreno mais fértil de atuação entre o jovem movimento expressionista que lá surgia. Nesta cena periférica das artes alemãs, desempenharia um papel fundamental como organizador e teórico na cena artística que ficaria conhecida como Expressionismo Renano. Um clube de escritores, músicos, pintores e amantes das artes em geral que se reuniam para organizar concertos, palestras e exposições de arte contemporânea. Este segmento do expressionismo seria também marcado por uma série de personalidades individuais que mantinham laços criativos através somente de uma amizade criadora e não de um programa comum, com exceção apenas do fato de que, em sua maioria, estes artistas possuíam uma influência maior do modernismo francês do que os expressionismos de outras cidades alemãs. Isso principalmente pelo fato de sua localização geográfica, na fronteira com a França. Daí a grande influência de Macke nesta cena. A influência da obra de Delaunai também seria característica da obra de muitos destes pintores, como Wilhelm Morgner, ainda que sua abordagem ainda fosse essencialmente alemã.
Sua contribuição mais significativa ao movimento da Renânia foi a organização da Sonderbund, a mais importante exposição de arte moderna internacional que já ocorrera na Alemanha até então, fundamental na formação de inúmeros jovens pintores da região.
Os artistas deste grupo, sob influência de Macke, seriam muito mais abertos à idéia de uma arte “abstrata”, cuja busca fundamental era “imbuir a natureza de alegria”, segundo as palavras de Macke. Colocado em outros termos, uma pintura que buscasse, através apenas de sua composição e variações cromáticas, desvelar uma imagem sintética e essencial, do ponto de vista da forma, da realidade. Filosofia que poderia ter sido expressa – e o foi – pelos baluartes da escola francesa, como Monet, Matisse e Picasso, cada um à sua maneira. Que basearam suas obras, pelo menos em alguma de suas fases, em impressões e observações puramente sensuais e mundanas da vida. Macke acabaria entrando para a posteridade como o principal expoente do expressionismo da Renânia.
Em 1914, o pintor realiza uma importante viagem à Tunísia, ao lado de seus amigos Paul Klee e Louis Moilliet, que introduziria em seus trabalhos posteriores uma nova luminosidade iridescente, em composições geométricas, à maneira de Delaunai. Trabalhos característicos desta fase são suas aquarelas mergulhadas da luminosidade do oriente, como Vista de uma Viela e Kairuan III. Os frutos desta viagem, no entanto, nunca puderam ser colhidos satisfatoriamente. Apenas algumas semanas depois de retornar da África, é convocado para o front. O Império Alemão encabeçava então a maior guerra que o mundo já havia presenciado, ápice dos planos expansionistas de Wilhelm II na tentativa de tornar a Alemanha uma grande potência internacional. O artista seria abatido em combate em setembro daquele ano, aos 27 anos. Da mesma forma, seu amigo Franz Marc também morreria na guerra. Com eles, esgotava-se esta etapa do movimento expressionista, que retornaria depois da guerra, e da Revolução de 1918, muito mais político e radical.