O atual Iêmen é um país de formação recente, a luta política que o levou a sua atual configuração e que perdura até os dias de hoje, reflete de maneira bem nítida a luta travada em toda região entre o imperialismo norte-americano, juntamente com seus principais aliados, os sionistas, ocupantes ilegais da Palestina, contra a República Islâmica do Irã, cuja guarda revolucionária, arquitetou todo o eixo da resistência atuante na região.
Atualmente o país passa por uma disputa para total controle de seu território entre o governo reconhecido internacionalmente, apoiado pelo imperialismo, mais diretamente pela Arábia Saudita, com sua monarquia subserviente, e do outro lado, o Ansar Alá, os Partidários de Deus em tradução literal, grupo que integra o eixo da resistência, também conhecido como Hutis, termo que se refere a seu antigo líder Hussein Badreddin al-Houthi.
A luta escancara a política rasteira que o imperialismo leva adiante na região através de seus aliados, e também se caracteriza pela imensa bravura dos combatentes e capacidade estratégica para a resistência que enfrenta um inimigo poderoso com recursos bem limitados.
A atual escalada do conflito, que quebrou uma trégua estabelecida em 2022, assume uma grande importância para o futuro de toda a região. O fator geográfico é fundamental durante toda a história do conflito. O país está localizado no Estreito de Bab al-Mandeb, que liga o Mar Vermelho e o Golfo de Aden, cujo uma de suas margens banha a maior parte da costa iemenita. O controle do trânsito marítimo na região assume cada vez mais importância na situação política mundial. Um bloqueio de ambos estreitos que cercam a península arábica poderia liquidar a economia mundial em questão de semanas, talvez dias.
Aliança Multinacional de Defesa Marítima
Em 30 de julho de 2026, a monarquia saudita deu início a mais uma ofensiva contra o Iêmen, na defesa da política imperialista para o trânsito marítimo na região, fator de maior relevância na guerra entre os Estados Unidos e o Irã.
Nessa data, o Ministério de Defesa da Arábia Saudita, reuniu em sua capital Riade, as demais monarquias subservientes ao imperialismo, além de países importantes da África, como Somália, Sudão e Djibouti (localizadas no chifre do continente, na margem oposta ao Iêmen do Mar Vermelho), para uma coalizão militar, dita defensiva, ma com claro intuito de provocar e atacar o Ansar Alá, que controla a faixa mais estreita do Estreito de Bab al-Mandeb.
O estreito assume maior importância com o domínio iraniano em Ormuz, pois passam por Bab al-Mandeb, cerca de 7% a 12% do petróleo mundial e grande parte do comércio entre Ásia e Europa.
Tremendo um fechamento ou um controle maior do estreito pelos iêmenita, aliados aos iranianos, a Aliança vem para tentar garantir os interesses dos norte-americanos e consequentemente dos sionistas na região, estes sem participação direta, deixando a cargo das monarquias árabes, tradicionais aliados, o esforço para garantir a sua política.
O Estreito de Ormuz sob domínio iraniano, juntamente com o Estreito de Bab al-Mandeb sob o domínio do Ansar Alá, representa uma vitória da resistência. A Aliança é uma medida de desespero do imperialismo para o domínio marítimo da região.
Tendo em vista esta preocupação, a reunião em Riade deu origem à Aliança Multinacional de Defesa Marítima, dos 51 países convidados, 43 enviaram representantes ao evento, além deles uma delegação da União Europeia também esteve presente, o que demonstra a preocupação do imperialismo para o monitoramento das decisões ali tomadas.
Os países que aderiram imediatamente foram: Arábia Saudita, Bahrein, Bangladesh, Catar, Comores, Djibuti, Egito, Jordânia, Kuwait, Nigéria, Paquistão, Somália, Sudão e o próprio Iêmen, porém este, representado pelo governo internacionalmente reconhecido.
Os Emirados Árabes Unidos e Omã, estiveram presentes através de representantes, mas não aderiram ao acordo de imediato. Os representantes de países ocidentais, inclusive dos Estados Unidos e União Europeia, não assinaram o acordo, porém já existe na região uma iniciativa de patrulhamento marítimo da região sob comando desses países. Tudo indica que a aliança presidida pelos sauditas, atuará como auxiliar dessa iniciativa imperialista, podendo assumir a frente em ações que não convém ao imperialismo assumir a dianteira.
De acordo com uma matéria publicada pela Saudi Press Agency, em pronunciamento, os estados integrantes da Aliança pretendem: “Fortalecer a cooperação em segurança marítima, compartilhamento de informações e inteligência, planejamento operacional, exercícios conjuntos, lições aprendidas, treinamento, capacitação e execução de operações marítimas conjuntas, em conformidade com as disposições da Carta das Nações Unidas”, “os Estados que partilham os objetivos e princípios da aliança são convidados a aderir à sua Carta, em conformidade com as suas disposições, contribuindo assim para expandir a cooperação e reforçar a segurança marítima coletiva no Estreito de Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho e no Golfo de Aden”. (Saudi Press Agency, 2 de agosto de 2026 https://www.spa.gov.sa/en/N2644911)
O pronunciamento afirmou também que “a aliança é de natureza puramente defensiva, não tem como alvo nenhum Estado, aliança ou organização internacional, e conduz todas as suas atividades em plena conformidade com o direito internacional, com respeito à soberania estatal e em defesa da liberdade de navegação”. (Idem).
Afirmar que a Aliança tem como objetivo a mera defesa, trata-se de uma típica declaração cínica, tradicional da retórica imperialista, que sempre usa este argumento para atacar aqueles que ousam enfrentá-los, que nesse caso o alvo é atacar o Ansar Alá, tirá-lo do domínio do Estreito de Bab al-Mandeb, numa clara tentativa de enfraquecer o eixo da resistência como um todo, do qual fazem parte o Hamas na Palestina, o Hezbollah no Líbano e principalmente a República Islâmica do Irã.
Escalada do conflito
A formação da aliança internacional para o patrulhamento marítimo da região do Estreito de Bab al-Mandeb e do Golfo de Aden, usou como pretexto os supostos pedágios ilegais cobrados pelo Ansar Alá e o bloqueio do estreito realizado pelo grupo, porém tal ação dos iemenitas do Eixo da Resistência, opostos ao governo do país reconhecido internacionalmente, que está cooperando com os sauditas neste acordo militar, veio após o bombardeio do aeroporto de Sanaá, capital do Iêmen, realizada em 13 de julho, pelo governo fantoche do país, que conta com o apoio saudita.
Quanto aos pedágios, não há prova concreta de que o grupo esteja de fato obrigando as empresas que por ali trafegam a pagar, a suspeita foi levantada após uma reportagem da agência Reuters, onde algumas fontes afirmam que haveria a intenção de cobrar as supostas taxas, não afirmando que elas já eram cobradas.
Em um comunicado divulgado pelo Centro de Coordenação de Operações Humanitárias (HOCC), órgão administrado pelo Ansar Alá, a prática foi negada e o grupo ainda acrescentou que “qualquer pessoa que exija pagamento pela passagem não representa o Iêmen nem o HOCC”. ( Al Jazeera, 1 de agosto de 2026)
O bombardeio teve como objetivo impedir o pouso de um avião iraniano que transportava uma comitiva de líderes do Ansar Alá, que haviam voltado de Teerã, capital do Irã, após o funeral de Ali Khamenei, Líder Supremo do país, assassinado pelo imperialismo em fevereiro deste ano.
A ação não representou apenas uma tentativa de ataque ao eixo da resistência, mas também contra o próprio povo iemenita, afinal o bombardeio ocorreu na capital, área de maior densidade populacional, sendo o aeroporto da cidade a única ligação do país com o restante do mundo, pois é o único a receber voos internacionais, por onde chegam ajuda humanitária e diversos suprimentos de necessidade básica como medicamentos.
O pretexto do governo iemenita girou em torno da soberania do espaço aéreo do país: “A milícia terrorista Houthi (Ansar Alá), apoiada pelo regime iraniano, impediu que aeronaves nacionais iemenitas pousassem no aeroporto da capital, Sanaa, e insistiu que as aeronaves iranianas violassem o espaço aéreo iemenita. Portanto, a pista do aeroporto foi alvo de ataques” declarou o governo (Al Jazeera, 13 de julho de 2026).
A emissora al-Masirah, ligada ao Ansar Alá, afirmou: “O avião iraniano pousou em solo nacional, transportando pacientes e cidadãos que estavam retidos no exterior, acompanhado pela delegação oficial da República do Iêmen”.(Idem) Yahya Saree, porta-voz militar do grupo da resistência iemenita,reagiu ao ataque: “esta agressão não ficará sem resposta nem impune”.
O Ministério das Relações Exteriores do Irã, também repudiou a ação: “uma clara violação do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, bem como uma afronta à soberania nacional e à integridade territorial do Iêmen”(Idem), descreveu Esmaeil Baghaei, porta-voz do ministério iraniano.
O que se seguiu após o bombardeio criminoso do aeroporto de Saná, foi a escalada do conflito que culminou na atual aliança comandada pela Arábia Saudita contra o Ansar Alá, visando atingir o governo iraniano e garantir os interesses imperialistas no controle dos mares da região.
Após o ataque a Saná, em poucas horas a resistência imenita realizou ataques ao Aeroporto Internacional de Abha, no sudoeste da Arábia Saudita, que recebe também um grande número de voos internacionais. A contra ofensiva se deu através de drones e mísseis balísticos, acarretando no fechamento do aeroporto por aproximadamente 72 horas e o cancelamento de diversos voos.
Em 20 de julho, o Ansar Alá decidiu pelo bloqueio total do Estreito de Bab el-Mandeb para embarcações sauditas, centenas de iemenitas tomaram as ruas da capital Saná em apoio ao bloqueio, na multidão é possível reconhecer além de bandeiras do próprio país, mas também do Irã e do Hezbollah, partido político libanês que também integra o eixo da resistência. (Reuters, 21 de julho de 2026)
Os sauditas reagiram ao bloqueio atacando o Porto de Hodeidah, localizado no Mar Vermelho, na cidade de mesmo nome, local de grande importância para o abastecimento do país. A ofensiva teve como resultado danos em equipamentos de telecomunicações e instalações militares, que se localizam nos arredores do porto, não comprometendo o funcionamento dele.
O revide da resistência iemenita veio dois dias depois, em 26 de julho, disparando mísseis contra instalações da petroleira estatal Saudi Aramco nas cidades costeiras de Jizan e Yanbu, levando a suspensão temporária das atividades da empresa, principalmente em relação à sua capacidade de refino de petróleo, que era de 400 mil barris de petróleo por dia. Em nota, a empresa notificou que “o ataque danificou o complexo de ciclo combinado de gaseificação integrada (IGCC) da usina e a área de tanques de armazenamento”, e dessa maneira “ a Aramco deverá concluir os reparos e reiniciar a usina até 15 de agosto”. O acirramento do conflito levou a uma disparada no preço do barril de petróleo, que ultrapassou o valor de US$ 100 (Boe Report, 28 de julho de 2026).
O Ansar Alá adotou a política de “escalada por escalada” com a Arábia Saudita e consequente contra seus fantoches dentro do próprio Iêmen, o que vem causando enormes prejuízos econômicos para esses inimigos, o que justifica a criação da coalizão militar contra o grupo da resistência, afinal somente os sauditas não estão obtendo bons resultados, sendo necessário o apoio das demais monarquias locais.
A retórica defensiva também já se demonstra falsa, afinal, o ataque ao aeroporto de Saná, revela que a coalizão não terá problemas em sacrificar o povo iemenita para atingir seus objetivos de controle marítimo na região e normalizar o fluxo de petróleo de suas empresas. São esses representantes legítimos e tradicionais do imperialismo, a política a ser implantada seguirá os mesmos métodos praticados contra todos aqueles que ousam se erguer contra a política imperialista.
Ansar Alá: criado na luta anti imperialista
O Ansar Alá tornou-se conhecido mundialmente, de uma maneira mais significativa, após a ofensiva do Hamas contra a ocupação ilegal da Palestina em 7 de outubro de 2023. O apoio do grupo não se limitou apenas a formalidades, mas sim em ações práticas como impedir a passagem de navios pelo Estreito de Bab al-Mandeb, que serviriam para suprir os sionistas e permitirem a continuidade do massacre que escalou imediatamente após a ação do Hamas.
Porém as origens do grupo remontam a década de 1960, e adquiriu sua configuração atual com os processos que vieram a ocorrer com a unificação do Iêmen do norte e do sul, em 1990. o grupo inicialmente era formado por estudantes de orientação Zaidita, uma tendência do xiismo islâmico, em torno da liderança de Hussein Badreddin al-Houthi, fundador do movimento que se tornaria cada vez mais político dentro de seu país e de quem também surgiu o termo para nomear o grupo, Huti.
Sendo al-Houthi, um líder de extrema importância para a insurreição por eles protagonizada contra o governo iemenita que teve inicio em 2004, ano de seu assassinato pelas forças do governo central, quem assumiu a liderança dos chamados Hutíis foi seu próprio irmão Abdul-Malik al-Houthi, nessa fase foi que o grupo assumiu o nome de Ansar Alá.
O propósito inicial dos chamados Hutis era religioso e cultural, ligado ao fortalecimento da identidade Zaidita, perseguida desde a Revolução Republicana do Iêmen, ocorrida em 1967. O imperialismo foi o responsável por conduzir o grupo para a luta armada e consequentemente a uma maior politização, através da invasão norte-americana ao Iraque em 2003, a qual se opuseram e fizeram frente aos invasores.
O conflito em relação aos sauditas têm origem na unificação do país, que passou a ser governado de maneira centralizada por Ali Abdullah Saleh, os Hutis nesse período representavam uma minoria política vinda do norte do país.
O então presidente incentivou a entrada de Salafistas e Wahabistas no Iêmen, corrente essas que são predominantes na Arabia Saudita, portanto mais suscetíveis a influência do imperialismo em sua política, sendo assim de valores opostos ao Zaidismo defendidos pelo grupo que hoje integra o eixo da resistência ao lado da República Islâmica do Irã.
Uma vez sob a influência saudita, e consequentemente imperialista, o governo central do Iêmen passou a considerar os Zaiditas uma ameaça àquela unificação que se dava sob bases suspeitas. O que resultou em campanhas militares contra eles, realizadas entre 2004 e 2010, conhecidas como As Seis Guerras de Saada.
A partir de 2011, com a chamada Primavera Árabe, o governo central do Iêmen perdeu força sob a liderança de Abdrabbuh Mansour Hadi, o novo presidente. O apoio popular ao Ansar Alá crescia e o novo governo não conseguiu levar adiante a unificação ainda em andamento, tendo até o antigo presidente Saleh como inimigo, este que se aliou aos próprios antigos Hutis, auxiliando na tomada da cidade de Saná em 2014.
O aprofundamento das relações entre o Irã e o Ansar Alá vieram nesse período, o que resultou numa maturidade política para o grupo, que passou a se tornar cada vez mais relevante, esse fator desagradou profundamente os sauditas, que juntamente os Emirados Árabes Unidos, apoiaram a oposição dando início a uma guerra civil no país a partir de 2015.
O panorama criado pelo contexto da guerra civil é o que se reflete até os dias atuais, desde esse período os sauditas não conseguem derrotar o Ansar Alá, que somente aperfeiçoa suas táticas de resistência e ganha cada vez mais prestígio internacional e o reconhecimento daqueles que se levantam contra os crimes do imperialismo, de um grupo voltado e cultura e principalmente a religião de origem tribal em um pais marcado pela pobreza, o Ansar Alá é hoje uma reconhecida força anti imperialista, que não dá indícios de que vai capitular ou desistir de seus propósitos, permanecendo firme na defesa do povo palestino e demais oprimidos da região, que mesmo com recursos limitados leva adiante uma heróica luta contra os maiores inimigos da humanidade.