18.10.2026

Economia

A fábrica chinesa se espalha pelo mundo

André Machado Rodrigues

Pressionadas pela disputa internacional e pelos limites do mercado interno, empresas chinesas levam fábricas, fornecedores e infraestrutura a novos continentes

A expansão internacional das empresas chinesas mudou de escala. Além de exportar mercadorias, fabricantes de veículos elétricos, baterias, equipamentos de energia e componentes tecnológicos passaram a instalar fábricas, atrair fornecedores e participar de redes logísticas em diferentes continentes. A mudança responde a uma combinação de pressões: demanda doméstica enfraquecida, crise imobiliária, concorrência intensa e margens menores dentro da China, além das tarifas, sanções e restrições tecnológicas impostas pelo imperialismo. Ao produzir em países como Egito, Tailândia, Brasil, México e Hungria, as empresas chinesas procuram alcançar novos consumidores, aproximar-se dos mercados finais e contornar parte das barreiras comerciais. Até o momento, a internacionalização não significa abandono da base industrial chinesa, mas sua extensão para uma rede produtiva mundial que continua dependente de máquinas, componentes e tecnologia vindos da China. Para os países que recebem esses investimentos, a expansão pode criar fábricas, empregos e infraestrutura. Seus resultados dependem do conteúdo local, da transferência tecnológica e do controle das cadeias de maior valor. O artigo examina como essa estratégia amplia o espaço econômico da China e sustenta seu crescimento diante dos limites internos e do cerco externo.

1) Da oficina do mundo a uma rede mundial de fábricas

1.1) Ain Sokhna: uma transformação vista do porto

Ain Sokhna fica no golfo de Suez, diante de uma das rotas mais importantes do comércio mundial. Durante séculos, o porto egípcio recebeu mercadorias que atravessavam o Mar Vermelho; hoje, ele permite observar uma mudança na própria organização da indústria. Em 2018, a chinesa Jushi concluiu ali uma fábrica de fibra de vidro. Nos dois anos seguintes, chegaram fabricantes de papel, cabos de fibra óptica, equipamentos elétricos e outros produtos. O porto duplicou sua capacidade e ganhou um novo terminal, construído com participação de grupos logísticos chineses. O complexo passou a funcionar como um polo produtivo ligado ao Canal de Suez. (The Economist, 19 ago. 2026.)

A Zona de Cooperação Econômica e Comercial China–Egito de Suez, administrada pela Área de Desenvolvimento Econômico-Tecnológico de Tianjin (TEDA, na sigla em inglês), é o representante mais visível desse processo. Segundo dados divulgados pela agência chinesa Xinhua, no fim de 2025 ela reunia quase 200 empresas, US$ 3,8 bilhões em investimentos e cerca de 10 mil empregos. A área inicial, de 7,34 quilômetros quadrados, aproximava-se da ocupação total, e um acordo assinado em julho de 2025 previu mais US$ 100 milhões em infraestrutura para acrescentar 2,86 quilômetros quadrados ao complexo. O resultado é visível: fábricas, armazéns, terminais e serviços passaram a ocupar um território organizado para a produção e a exportação. (Xinhua, 23 jan. 2026. Os números são atribuídos a dados oficiais da zona TEDA.)

O interesse não se limita ao tamanho do mercado egípcio, embora seus cerca de 120 milhões de habitantes constituam um atrativo. Ain Sokhna oferece acesso ao norte da África, ao Oriente Médio e, pelo Canal de Suez, ao Mediterrâneo e à Europa. A licença dourada criada pelo governo egípcio reduz etapas burocráticas para grandes empreendimentos. Para a empresa chinesa, a mesma fábrica pode vender localmente e servir de plataforma regional. Para o Egito, a promessa é atrair indústria, empregos, impostos e tecnologia.

1.2) Mais de US$ 200 bilhões e uma mudança de escala

A revista The Economist estimou a dimensão mundial desse movimento com base em dados do Rhodium Group: empresas chinesas teriam gasto mais de US$ 200 bilhões na construção de fábricas no exterior nos três anos até agosto de 2026. A cifra não deve ser confundida com todo o investimento externo da China. A estimativa procura medir novos projetos produtivos; aquisições de empresas, empréstimos entre filiais e aplicações financeiras não entram nela da mesma forma.

Em 2025, o grupo registrou US$ 124 bilhões em novas transações de investimento externo anunciadas por empresas chinesas, 18% acima de 2024. O valor de investimentos efetivamente concluídos foi menor, US$ 73 bilhões. Os novos projetos anunciados somaram US$ 100 bilhões, concentrados em mineração, centros de dados e energia. (Rhodium Group, 2026.)

É preciso considerar três aspectos. O primeiro é geográfico: a produção chinesa espalhou-se por quase todas as regiões, com avanço particularmente forte em economias de renda média. O segundo é produtivo: fornecedores de baterias, metais, máquinas e componentes começaram a acompanhar as empresas âncora, reproduzindo no exterior parte dos aglomerados industriais que deram eficiência à manufatura chinesa. O terceiro é setorial: veículos elétricos, baterias, energia solar, materiais industriais e equipamentos para centros de dados ganharam peso. Isso ainda não significa que a China esteja deixando de ser a principal base dessas cadeias. As exportações continuaram crescendo mais rapidamente do que a produção externa, e a participação chinesa na manufatura mundial não mostrou queda. A expansão externa acrescenta uma dimensão internacional à indústria chinesa.

2) O limite interno da China

2.1) Consumo fraco, crise imobiliária e pressão deflacionária

A economia chinesa não estava parada quando suas empresas aceleraram a construção de fábricas no exterior. Em 2025, o produto interno bruto (PIB) cresceu 5%, a manufatura avançou 6,4% e a produção de veículos de nova energia aumentou 25,1%, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas da China. A renda disponível real por habitante também cresceu 5%. Esses dados não permitem apresentar a desaceleração como colapso. Ao mesmo tempo, revelam um desequilíbrio: as vendas varejistas aumentaram 3,7%, abaixo da produção industrial, enquanto as exportações cresceram 6,1% e as importações apenas 0,5%. (Escritório Nacional de Estatísticas da China, 19 jan. 2026.)

O setor imobiliário concentra a dificuldade mais profunda. O investimento em desenvolvimento imobiliário caiu 17,2% em 2025; a área vendida de novos imóveis recuou 8,7%, e o valor das vendas diminuiu 12,6%. Durante décadas, a compra de moradias, a construção e a valorização dos terrenos sustentaram receitas locais, patrimônio familiar e demanda por aço, cimento, eletrodomésticos e serviços. Quando esse mecanismo se contrai, o efeito não fica restrito às incorporadoras. Famílias que veem o valor de seus ativos cair tendem a poupar mais; governos locais endividados perdem margem para investir; empresas adiam projetos destinados ao mercado doméstico.

Os preços mostram outra face do problema. O índice de preços ao consumidor ficou estável no conjunto de 2025, enquanto os preços pagos aos produtores industriais caíram 2,6%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) descreveu uma economia abaixo do potencial, com demanda interna fraca, contração imobiliária prolongada e pressões deflacionárias. A instituição projetou crescimento de 4,5% em 2026 e advertiu para a dependência crescente da demanda externa. A análise do FMI favorece a expansão do consumo e a redução do peso do investimento dirigido pelo Estado. Não é preciso adotar integralmente essa perspectiva para reconhecer o dado central: a capacidade industrial avançou mais depressa do que a absorção do mercado interno. (FMI, People’s Republic of China: 2025 Article IV Consultation, relatório n. 26/44, fev. 2026.)

2.2) Concorrência industrial, margens menores e busca de novos mercados

Quando muitas empresas disputam uma demanda que cresce lentamente, o resultado não se resume a estoque encalhado. Elas reduzem preços, acrescentam equipamentos aos produtos, aceleram lançamentos e aceitam margens menores para preservar participação. Na China, esse processo passou a ser chamado de “neijuan”, frequentemente traduzido como “involução”: uma competição intensa na qual cada fabricante precisa correr mais para evitar perder espaço, sem que o mercado total avance na mesma proporção.

O fenômeno não atinge todos os setores nem prova, sozinho, um “excesso de capacidade” geral. A utilização das fábricas, os preços, a rentabilidade e a demanda mundial variam entre automóveis, painéis solares, baterias, aço e equipamentos eletrônicos. O próprio dado oficial de 2025 combina expansão industrial de 5,9% com crescimento de apenas 0,1% nos lucros das grandes empresas industriais nos onze primeiros meses. A produção continuou crescendo, mas convertê-la em lucro ficou mais difícil.

O exterior oferece uma saída parcial. Uma empresa que enfrenta guerra de preços na China pode buscar consumidores onde a motorização, a geração elétrica ou a infraestrutura digital ainda estão se expandindo. Pode também produzir perto do cliente, reduzir frete e adaptar o produto a normas locais. O mercado externo não é apenas um depósito para mercadorias que não foram vendidas dentro da China: ele pode sustentar novas escalas, diluir custos de pesquisa e aproveitar vantagens tecnológicas acumuladas.

A mesma solução, contudo, reproduz a competição chinesa em novos territórios. Diversas montadoras podem escolher o mesmo país; fabricantes locais pressionam por proteção; fornecedores disputam incentivos; governos exigem conteúdo nacional. A internacionalização desloca a luta pelas margens para o plano mundial. Ela permite que as empresas continuem crescendo, mas as obriga a negociar trabalho, impostos, normas ambientais e transferência tecnológica em cada país receptor.

3) Crescimento econômico e estabilidade social

3.1) Emprego, renda e o pacto material do desenvolvimento

O crescimento chinês das últimas décadas não foi uma abstração estatística, como insinuam alguns analistas econômicos. Ele transformou o emprego, a urbanização, a infraestrutura e o consumo de centenas de milhões de pessoas. Em 2025, 67,9% da população vivia em áreas urbanas; o país tinha 301 milhões de trabalhadores migrantes rurais, e a renda real média continuava a aumentar. O desemprego urbano, medido por pesquisa, ficou em 5,2%. A estabilidade social está ligada a esse processo material: cada geração passou a esperar trabalho, moradia, educação e condições de vida melhores do que as da anterior.

Preservar a atividade industrial continua sendo, portanto, uma questão social. Uma fábrica de automóveis não emprega apenas a linha de montagem. Ela demanda aço, vidro, software, transporte, manutenção, crédito e uma rede de fornecedores. Quando uma empresa chinesa conquista mercado no exterior, parte dessa demanda permanece na China por meio de máquinas, projetos, componentes e serviços. No primeiro semestre de 2026, as exportações chinesas de bens de capital cresceram 14% e as de bens intermediários, 27%. A fábrica externa pode sustentar empregos na China mesmo quando uma parcela da montagem cruza a fronteira.

3.2) Internacionalização, crescimento e estabilidade

Há uma relação entre internacionalização, crescimento e estabilidade. O governo chinês tem interesse em ampliar mercados, preservar capacidades tecnológicas e evitar uma perda brusca de empregos. Isso não permite afirmar que cada fábrica no exterior seja resultado de uma ordem central ou que todos os empresários ajam para impedir uma crise política. Uma decisão concreta pode ser tomada para obter lucro, escapar de uma tarifa, aproximar-se do consumidor ou aproveitar um subsídio local e ainda assim contribuir para objetivos nacionais mais amplos.

Os instrumentos do governo são identificáveis. Bancos públicos financiam projetos; acordos diplomáticos abrem mercados; empresas estatais constroem portos e ferrovias; planos industriais orientam setores considerados estratégicos. Em 2026, uma nova regulamentação do investimento externo entrou em vigor. Ela afirma o direito de as empresas tomarem decisões independentes e assumirem responsabilidade por lucros e perdas, mas também estabelece controles de risco, segurança nacional, transferência de dados e proteção de interesses no exterior. Nos quatro primeiros meses daquele ano, o investimento direto externo chinês em todos os setores alcançou 429,42 bilhões de iuans, cerca de US$ 63 bilhões, 3,9% acima do ano anterior. (Conselho de Estado da China, China unveils regulation on outbound investment, 1º jun. 2026.)

A formulação mais rigorosa separa três níveis. O primeiro é a necessidade objetiva de manter crescimento, emprego e modernização. O segundo é o comportamento observado das empresas, que constroem unidades produtivas e procuram novos mercados. O terceiro é a intenção política atribuída ao governo. Os dois primeiros podem ser medidos com investimentos, fábricas e comércio. O terceiro exige documentos, políticas e declarações. A internacionalização favorece a estabilidade econômica chinesa.

4) O cerco do imperialismo

4.1) Huawei, 5G e semicondutores

A expansão produtiva chinesa ocorre sob uma ofensiva destinada a limitar sua ascensão tecnológica. A Huawei foi colocada pelos Estados Unidos na chamada Lista de Entidades em 16 de maio de 2019, o que submeteu a venda, a reexportação e a transferência de itens sujeitos às normas norte-americanas à autorização do Departamento de Comércio. Em agosto de 2020, o alcance foi ampliado para determinados bens produzidos no exterior com tecnologia ou programas originários dos Estados Unidos. A ofensiva avançou depois contra equipamentos de quinta geração (5G) para telecomunicações e contratos públicos, acompanhada de pressão diplomática sobre aliados. O objetivo prático era impedir que uma empresa chinesa ocupasse uma posição central na infraestrutura digital mundial. (Escritório de Indústria e Segurança dos Estados Unidos, Additional Background on Huawei and the Foreign-Produced Direct Product Rule, 18 abr. 2023.)

A disputa pelos semicondutores ampliou o alcance do cerco. As regras anunciadas pelo Escritório de Indústria e Segurança dos Estados Unidos restringiram o acesso a chips de computação avançada, equipamentos de fabricação de semicondutores e transações ligadas a supercomputadores. Como máquinas, programas de projeto e componentes norte-americanos aparecem em cadeias produtivas de vários países, Washington procurou aplicar as exigências também a determinados bens fabricados fora dos Estados Unidos. A justificativa oficial invoca segurança nacional e uso militar; o efeito econômico é dificultar o acesso chinês às tecnologias que sustentam a inteligência artificial, as telecomunicações e a indústria avançada. (Escritório de Indústria e Segurança dos Estados Unidos, Commerce Implements New Export Controls on Advanced Computing and Semiconductor Manufacturing Items to the People’s Republic of China, 7 out. 2022.)

O bloqueio não eliminou a capacidade chinesa. Ele levou empresas e governo a investir na substituição de fornecedores, em projetos próprios e na fabricação doméstica, ao mesmo tempo que reduziu o acesso a uma parte dos mercados. A produção no exterior não resolve automaticamente essa barreira: uma fábrica chinesa instalada em outro país ainda pode depender de tecnologia sujeita às normas norte-americanas. A dispersão geográfica, porém, cria parceiros com interesse material na continuidade dos projetos e torna mais custoso isolar toda a cadeia.

O conflito em torno da Huawei envolve mais que uma marca de telefones ou antenas. Envolve quem define padrões, controla patentes, fornece equipamentos e coleta dados numa infraestrutura estratégica. Ao espalhar fábricas e centros de pesquisa, a China tenta conservar presença comercial mesmo em mercados submetidos à pressão do imperialismo norte-americano. A disputa tecnológica passa a ocorrer dentro dos países receptores, entre os benefícios do investimento e as ameaças de retaliação.

4.2) Tarifas contra veículos elétricos, baterias e energia solar

As barreiras aparecem com mais força nos setores de energia limpa. Em 2024, os Estados Unidos elevaram para 100% a tarifa adicional sobre veículos elétricos chineses, para 50% a tarifa sobre células solares e para 25% a tarifa sobre baterias de íons de lítio destinadas a veículos. Também programaram aumentos para semicondutores e baterias de outros usos. O Representante de Comércio dos Estados Unidos apresentou as medidas como defesa dos trabalhadores e das empresas norte-americanos. A própria revisão reconheceu, porém, que as tarifas reduziram as importações da China e aumentaram as compras provenientes de outras origens, sem produzir uma ruptura total das cadeias. (Representante de Comércio dos Estados Unidos, USTR Finalizes Action on China Tariffs Following Statutory Four-Year Review, 13 set. 2024; e Section 301 Modifications Determination, Federal Register, 18 set. 2024.)

A União Europeia adotou outro formato. Após uma investigação sobre subsídios, a Comissão impôs em outubro de 2024 tarifas compensatórias adicionais de 17% à BYD, 18,8% à Geely e 35,3% à SAIC, além de alíquotas específicas para outras empresas. As taxas somaram-se à tarifa normal de importação de automóveis. Ao contrário da proibição direta, elas aumentam o preço do veículo produzido na China e tornam relativamente mais atraente a fabricação dentro do continente. (Comissão Europeia, EU Commission imposes countervailing duties on imports of battery electric vehicles from China, 12 dez. 2024.)

O efeito é contraditório. A tarifa procura proteger montadoras estabelecidas, mas pode acelerar a instalação de montadoras chinesas do outro lado da barreira. A fábrica local reduz o peso da tarifa, encurta a entrega e permite disputar compras governamentais ou incentivos. Ao mesmo tempo, autoridades passam a examinar a origem das baterias, dos componentes e do capital, tentando impedir que uma montagem limitada seja tratada como produto nacional.

5) Produzir fora para continuar vendendo

5.1) A fábrica atrás da barreira comercial

A passagem da exportação para a produção local altera a conta de uma empresa. O produto fabricado na China carrega frete, seguro, tempo de transporte e tarifa. Uma fábrica próxima do consumidor exige terreno, trabalhadores, fornecedores, crédito e adaptação regulatória, mas pode evitar parte daqueles custos. A escolha depende do tamanho do mercado, da estabilidade das regras, do preço da energia e da possibilidade de vender também para países vizinhos.

Os acordos comerciais são decisivos. Um automóvel montado num país não recebe automaticamente as preferências tarifárias previstas no acordo. As regras de origem determinam que parcela do valor precisa ser gerada localmente ou dentro do bloco. Quanto mais rígida a regra, menos útil é simplesmente importar peças chinesas e uni-las na etapa final. Isso incentiva a chegada de fabricantes de motores elétricos, baterias, aço, eletrônica e outros componentes. Também pode impedir o projeto quando a empresa não consegue internalizar a cadeia a um custo aceitável.

Após as tarifas norte-americanas de 2018, o Fundo Monetário Internacional (FMI) identificou maior diversificação geográfica do investimento chinês e um papel crescente de países conectores. Um estudo do governo canadense observou investimentos greenfield dirigidos a automóveis no México e a eletrônicos no Vietnã e na Tailândia, associando-os tanto à busca de mercados quanto à navegação pelas barreiras comerciais. A expressão “país conector” descreve economias que recebem investimento, importam máquinas e insumos da China e exportam parte da produção para mercados antes abastecidos diretamente. (Fundo Monetário Internacional, China’s Foreign Direct Investment: Inward and Outward, 30 ago. 2024; e Assuntos Globais Canadá, Exploring China’s Investment Landscape: Decoding the Narratives, jul. 2026.)

A fábrica atrás da barreira pode, portanto, assumir formas muito diferentes. Numa extremidade está a montagem dependente de componentes importados; na outra, um polo com fornecedores, engenharia e pesquisa locais. Os governos costumam oferecer incentivos para receber o primeiro investimento e depois pressionam pela localização de mais etapas da cadeia.

5.2) Fornecedores, máquinas e logística acompanham a empresa principal

Uma montadora sozinha não constitui uma cadeia produtiva. Ela depende de milhares de peças, materiais, máquinas e serviços entregues no momento certo. A eficiência conquistada pela indústria chinesa veio, em grande parte, da concentração territorial desses fornecedores. Quando a empresa âncora se instala fora do país, precisa decidir o que levar, o que importar e o que comprar localmente.

O movimento recente mostra uma internacionalização mais profunda. No Marrocos, a Gotion começou a construir uma fábrica de baterias enquanto empresas chinesas de ânodos, cátodos e folhas de cobre preparavam unidades a poucas horas de distância. No Egito, fabricantes de eletrodomésticos incentivaram fornecedores a abrir fábricas próximas. Na Tailândia, a chegada de montadoras atraiu fabricantes de componentes automotivos e eletrônicos. Ainda assim, máquinas-ferramenta e insumos sem equivalente competitivo continuam vindo da China. Isso ajuda a explicar por que a expansão externa coincidiu com o crescimento das exportações chinesas de bens de capital e intermediários em 2026.

A logística completa a cadeia. Empresas chinesas mantinham operações ou investimentos em pelo menos 132 portos estrangeiros, além de aeroportos e ferrovias. A linha Budapeste–Belgrado, concluída em 2026, aproxima polos industriais da Europa Central e dos Bálcãs; o terminal de Ain Sokhna liga fábricas ao Canal de Suez; portos asiáticos conectam minérios, refinarias e fábricas de baterias. A infraestrutura faz parte da produção. Ela determina tempo, estoque e custo.

Esse encadeamento explica por que a internacionalização chinesa pode avançar sem esvaziar imediatamente a China. Projetos, equipamentos, componentes críticos e financiamento continuam ligados à base original. Com o tempo, países receptores podem internalizar mais etapas e muitos condicionam incentivos a esse resultado.

6) O novo mapa industrial da Ásia

6.1) Tailândia e Vietnã: automóveis, eletrônicos e componentes ópticos

A Tailândia já possuía uma indústria automobilística construída durante décadas por montadoras japonesas. A entrada chinesa não começou num território vazio. Ela aproveitou fornecedores, portos, trabalhadores treinados e o Corredor Econômico Oriental e introduziu uma nova especialização em veículos elétricos. Em julho de 2024, a BYD inaugurou em Rayong uma fábrica de 32 bilhões de bahts, aproximadamente US$ 900 milhões. O projeto foi dimensionado para produzir 150 mil veículos por ano. Naquele momento, outras seis grandes fabricantes chinesas estavam operando ou construindo unidades próximas, entre elas Great Wall Motor, SAIC, Changan, GAC Aion, Chery e Hozon. (Conselho de Investimento da Tailândia, BYD Auto Components investment and Rayong manufacturing plant, 2024; e Thailand’s Electric Vehicle Industry Gears Up for a New Era.)

O mercado tailandês é importante, mas a capacidade planejada não se explica apenas pelas vendas internas. As fábricas podem abastecer outros países do Sudeste Asiático e mercados alcançados por acordos comerciais. O governo ofereceu subsídios ao consumo, benefícios fiscais e exigências de produção local para combinar a expansão do automóvel elétrico com uma política industrial. As empresas, por sua vez, ganharam uma plataforma fora da China e próxima a um parque de autopeças existente.

O Vietnã ocupa posição semelhante na eletrônica. Durante anos, o país recebeu fábricas de empresas japonesas, coreanas e norte-americanas e tornou-se um importante exportador de telefones, computadores e componentes. Empresas chinesas passaram a instalar ali novas unidades ou a fornecer máquinas e peças para redes já existentes. Um estudo do governo canadense identificou projetos greenfield chineses em eletrônica no Vietnã e na Tailândia como parte da busca simultânea por acesso a mercados e adaptação às barreiras comerciais.

Essa expansão não rompe necessariamente a dependência da China. Componentes, equipamentos e insumos continuam cruzando a fronteira, enquanto a montagem final recebe uma nova origem aduaneira. Em setores mais avançados, porém, aparecem etapas de maior valor. A Tailândia tornou-se um centro de produção de componentes ópticos de alta velocidade para centros de dados, incluindo unidades da Zhongji InnoLight que abastecem empresas norte-americanas de computação em nuvem.

6.2) Indonésia: minerais, baterias e integração produtiva

A Indonésia escolheu outro ponto de entrada: o controle sobre o níquel. Em vez de aceitar apenas a exportação do minério, o governo restringiu a venda de material bruto e exigiu processamento interno. A política atraiu capital chinês para minas, fundições e parques industriais e transformou o país num centro mundial de produção de níquel para o aço inoxidável e para certas químicas de baterias.

O projeto da Contemporary Amperex Technology (CATL) mostra a extensão dessa estratégia. Por meio de um consórcio com BRUNP e Lygend, a empresa associou-se às estatais indonésias ANTAM e Indonesia Battery Corporation. O plano, estimado oficialmente em US$ 6 bilhões, cobre mineração, fundição, precursores, cátodos, células de bateria e reciclagem em Halmahera Oriental e Karawang. Se executado integralmente, ele reduz a distância entre a extração do mineral e o produto de maior valor, em vez de limitar a Indonésia ao papel de fornecedora de matéria-prima. (Ministério do Investimento e da Industrialização a Jusante da Indonésia, Minister Rosan Accelerates Electric Vehicle Ecosystem Investment, Meets Major Chinese Companies, 2025.)

A Indonésia também enfrenta a pressão externa. Baterias e minerais processados com participação chinesa podem encontrar obstáculos nas regras de subsídios e segurança econômica dos Estados Unidos. Assim, um país que usa capital e tecnologia da China para subir na cadeia fica sujeito à tentativa do imperialismo de condicionar o acesso a seus mercados à exclusão chinesa. Há interesses em conflito: o governo indonésio busca reter mais valor; as empresas chinesas procuram assegurar matéria-prima e mercado; Washington tenta controlar a composição da cadeia.

7) África e Oriente Médio como plataformas industriais

7.1) Egito: mercado interno, Suez e a zona TEDA

O retorno a Ain Sokhna permite distinguir o que já existe dos projetos anunciados. A zona TEDA já reúne empresas em operação e uma infraestrutura construída durante anos. Ao lado delas, há empreendimentos cuja execução ainda depende de obras, financiamento e mercado. Em abril de 2025, por exemplo, a Zona Econômica do Canal de Suez anunciou o início das obras de um complexo da Xin Feng, com nove fábricas de produtos metálicos e investimento previsto de US$ 1,65 bilhão. Outro projeto, da Sunrev Solar, prevê US$ 200 milhões para fabricar células e módulos solares numa área de 200 mil metros quadrados. (Zona Econômica do Canal de Suez, Xin Feng Integrated Complex for Metal Industries in Sokhna, 29 abr. 2025; Zona Econômica do Canal de Suez, Sunrev Solar industrial complex in Sokhna, 2025.)

Esses valores são compromissos anunciados, não prova de que todo o capital tenha sido gasto. A diferença importa porque autoridades e empresas têm incentivo para divulgar o valor máximo e a capacidade final de um projeto. Uma avaliação segura combina terreno concedido, obra iniciada, equipamento instalado, produção registrada e emprego efetivo. No caso egípcio, a existência de quase 200 empresas na zona confirma uma base real; as cerimônias de lançamento indicam a etapa seguinte, ainda sujeita a atrasos.

O Egito oferece energia, mão de obra e acesso preferencial a diferentes mercados. Também necessita de moeda estrangeira, emprego industrial e receitas para sustentar uma economia pressionada por dívida e importações. A China oferece empresas capazes de construir rapidamente, além de uma rede logística ligada a portos. Essa complementaridade material não elimina a negociação. Se as máquinas, os insumos e a engenharia permanecerem integralmente importados, a economia local captura salários e impostos, mas não domina a cadeia. Se fornecedores egípcios forem incorporados e trabalhadores assumirem funções técnicas, o mesmo investimento pode ampliar capacidades nacionais.

A posição junto ao Suez torna essa disputa mundial. Uma fábrica em Ain Sokhna pode atender o Cairo, atravessar o canal para a Europa, alcançar o leste da África ou seguir para mercados árabes. A produção chinesa deixa de sair de um único litoral e passa a chegar aos consumidores por várias rotas. Isso reduz o tempo e a vulnerabilidade logística, mas também transforma o porto e a zona industrial em infraestrutura estratégica submetida às tensões do comércio internacional.

7.2) Marrocos e Golfo: energia limpa, baterias e acesso regional

No Marrocos, a cadeia das baterias começou a tomar forma em torno de Kenitra. A Gotion High-Tech assinou um acordo para uma primeira etapa de US$ 1,3 bilhão e capacidade anual de 20 gigawatts-hora. O plano de longo prazo prevê chegar a 100 gigawatts-hora e a um investimento total potencial de US$ 6,5 bilhões, mas essa expansão futura não deve ser tratada como fábrica já construída. A distinção entre fase inicial e capacidade máxima evita transformar uma intenção contratual em resultado consumado. (Reuters, 7 jun. 2024.)

O atrativo marroquino combina acordos comerciais, proximidade da Europa, indústria automobilística existente e acesso a minerais processados. A instalação da fábrica de células atraiu fornecedores chineses. A BTR anunciou produção de materiais para ânodos e cátodos; a Hailiang, folhas de cobre. O encadeamento é mais importante do que qualquer unidade isolada: uma bateria só pode ser produzida competitivamente se materiais, energia, transporte e controle de qualidade funcionarem juntos.

No Golfo, os fatores principais são a energia e a escala dos projetos. Fabricantes chineses de painéis que haviam se instalado no Sudeste Asiático passaram a planejar unidades na Arábia Saudita e em outros países da região. Os governos locais buscam usar receitas do petróleo e energia abundante para diversificar suas economias; as empresas chinesas encontram demanda por grandes usinas solares e uma plataforma entre Ásia, África e Europa. O movimento alcança equipamentos e materiais, não apenas a venda do painel pronto.

Marrocos e Golfo mostram que a internacionalização não segue um modelo único. No primeiro, a proximidade europeia e uma base automobilística favorecem baterias e componentes. No segundo, energia, financiamento estatal e projetos de infraestrutura atraem a produção solar. Em ambos, a China estende sua indústria para regiões que o imperialismo tentou manter como fornecedoras de matérias-primas ou compradoras de tecnologia pronta.

8) A expansão na América Latina

8.1) Brasil: a BYD em Camaçari e a disputa pelo conteúdo local

O complexo de Camaçari ocupa a antiga área da Ford na Bahia. O contraste é politicamente forte: um espaço abandonado por uma montadora norte-americana voltou a produzir com investimento chinês. O aporte anunciado pela BYD chegou a R$ 5,5 bilhões. A primeira fase foi inaugurada em outubro de 2025, com capacidade anual inicial de 150 mil veículos. Em julho de 2026, a empresa afirmou ter alcançado 100 mil unidades produzidas e 5.500 empregados diretos; o plano completo prevê até 600 mil veículos por ano. (BYD, 100,000 Vehicles, 5,500 Dreams in the Making, 16 jul. 2026. Dados de produção, emprego e capacidade são declarações da empresa.)

Os números mostram que o projeto saiu do anúncio e entrou em operação, mas não encerram a discussão sobre o grau de nacionalização. Nos primeiros estágios, a produção pode depender de conjuntos e componentes importados. Estampagem, soldagem, pintura e produção de baterias podem ser desenvolvidas localmente, enquanto a rede de fornecedores se amplia.

Camaçari pode seguir dois caminhos. Pode haver uma reindustrialização efetiva, com escala, empregos, fornecedores e domínio crescente da tecnologia elétrica. Também pode surgir uma unidade dependente de partes importadas e de subsídios, com ganhos locais limitados. O resultado dependerá menos da nacionalidade da empresa do que da capacidade brasileira de exigir conteúdo local, garantir direitos trabalhistas, promover pesquisa e integrar a produção.

8.2) México: proximidade dos Estados Unidos e risco de bloqueio

O México parece uma plataforma ideal. Está ligado aos Estados Unidos por cadeias automobilísticas, dispõe de trabalhadores industriais e participa do Acordo Estados Unidos–México–Canadá (USMCA, na sigla em inglês). Empresas chinesas de autopeças, eletrônicos e eletrodomésticos encontraram no país acesso ao mercado mexicano e proximidade da maior economia do continente. Dados de projetos greenfield mostram uma concentração particular no setor automotivo.

Mas estar no México não transforma automaticamente uma mercadoria em produto do USMCA. O acordo exige conteúdo regional elevado para automóveis e contém regras sobre aço, alumínio, trabalho e origem. Uma fábrica que apenas monta componentes chineses pode não receber a tarifa preferencial. Na revisão do tratado em 2026, autoridades e empresas norte-americanas pressionaram por regras ainda mais rígidas, coordenação de tarifas e instrumentos capazes de limitar capital e conteúdo chineses. (Baker Institute, China’s Role in the USMCA Review, 28 jan. 2026.)

A combinação de pressão norte-americana e cautela chinesa já influenciou decisões antes mesmo de qualquer proibição formal. A BYD havia anunciado em 2023 que pretendia construir uma fábrica no México, mas a aprovação de Pequim demorou além do esperado. Fontes ouvidas pela Reuters atribuíram a demora tanto à incerteza das tarifas norte-americanas quanto ao receio de que tecnologia chinesa fosse transferida aos Estados Unidos; o quadro continuava sujeito a mudanças. Governos locais enfrentaram o risco de perder benefícios na relação com Washington, e empresas evitaram comprometer grandes somas sem saber quais regras prevaleceriam. A possibilidade de produzir no México para vender principalmente dentro do próprio país permanece, mas a função de ponte para o mercado norte-americano ficou mais insegura. (Reuters, 11 abr. 2025.)

O caso mexicano mostra o limite dos países conectores. O capital chinês pode ampliar a indústria local, mas o acesso ao mercado dos Estados Unidos continua subordinado às decisões de Washington. O México não precisa escolher entre a dependência norte-americana e a chinesa. Precisa usar a disputa entre as duas potências para obter tecnologia e desenvolver capacidade própria. Sem essa política, continuará vulnerável às decisões tomadas nos dois extremos da cadeia.

9) A entrada chinesa na indústria europeia

9.1) Hungria: BYD, CATL e o eixo do automóvel elétrico

A Hungria tornou-se o principal destino europeu do investimento produtivo chinês ligado ao automóvel elétrico. A BYD escolheu Szeged para sua primeira grande fábrica de carros de passageiros na União Europeia. A CATL instalou em Debrecen um complexo de baterias destinado a abastecer montadoras europeias, e a Sunwoda acrescentou outro projeto do setor. Três dos dez maiores investimentos chineses em andamento na Europa em 2025 estavam no país. (Rhodium Group e Instituto Mercator de Estudos da China, Chinese investment rises to 7-year high — Chinese FDI in Europe: 2025 Update, 2026.)

A instalação dessas fábricas não pode ser dissociada das tarifas europeias. Produzir dentro da União Europeia permite à BYD vender sem a tarifa compensatória aplicada ao veículo importado da China, desde que cumpra as regras do bloco. Para fabricantes de baterias, a posição húngara oferece proximidade de montadoras alemãs e de suas fábricas na Europa Central. O governo de Viktor Orbán forneceu incentivos, infraestrutura e uma relação política favorável a Pequim.

Em 2025, a Hungria recebeu 3,9 bilhões de euros em investimento direto chinês, segundo a série do Rhodium Group e do Instituto Mercator de Estudos da China (MERICS, na sigla em inglês). No conjunto da União Europeia e do Reino Unido, o investimento chinês chegou a 16,8 bilhões de euros; projetos greenfield atingiram o recorde de 8,9 bilhões, e 93% do investimento automotivo concentrou-se na cadeia do veículo elétrico. As instituições que produzem esses dados participam do debate europeu sobre a China e devem ser lidas criticamente, mas a concentração setorial é clara.

A resistência local também cresceu. Grandes fábricas de baterias exigem água, energia e tratamento de substâncias químicas. Moradores de áreas próximas a Debrecen contestaram judicialmente a licença ambiental da CATL e alegaram risco de poluição; a autoridade local rejeitou a acusação, enquanto a empresa afirmou cumprir as normas e proteger o ar, a água e o solo. Sindicatos e organizações locais discutem salários, ritmo de trabalho e contratação de estrangeiros. A implantação pode criar capacidade industrial duradoura, mas incentivos pouco transparentes e fiscalização insuficiente limitam o controle social. (Megan Rowling, Hungary’s bet on EV battery boom hits bumps in the road, Climate Home News, 14 ago. 2025.)

9.2) Sérvia e outros pontos de entrada diante das tarifas da União Europeia

A Sérvia cumpre outra função. Ela não integra a União Europeia, mas mantém acordos e ligações industriais com o continente, além de uma relação estreita com a China. A fabricante Linglong Tire iniciou produção em Zrenjanin e anunciou expansão de uma unidade automatizada que fornece pneus a montadoras como Volkswagen e Ford. O investimento mostra como uma empresa chinesa pode entrar numa cadeia europeia não apenas com sua própria marca, mas como fornecedora de companhias estabelecidas.

A ferrovia Budapeste–Belgrado, concluída em 2026, criou uma ligação logística entre Hungria e Sérvia. A linha aproxima os polos da Europa Central das rotas que chegam ao porto grego de Pireu e conecta investimentos antes dispersos. Pneus, baterias, automóveis e componentes passam a circular por infraestrutura apoiada por empresas e financiamento chineses.

Outros pontos europeus cumprem funções diferentes. Alemanha e França receberam novas aquisições e projetos; Espanha atraiu investimentos em energia; fábricas de baterias avançaram em diversos países. Em 2025, o investimento chinês na Europa subiu 67% e alcançou o maior nível desde 2018, embora continuasse muito abaixo do pico da década anterior. A expansão ocorreu ao lado de uma fiscalização mais rigorosa de subsídios, segurança econômica e dependência tecnológica.

O imperialismo europeu procura preservar suas empresas e tecnologias, mas enfrenta uma contradição. A transição para veículos elétricos e energia renovável exige baterias, componentes e equipamentos que empresas chinesas produzem em escala e a preços competitivos. Barrar todas essas empresas encarece a transformação; recebê-las sem condições pode reduzir o controle europeu sobre setores estratégicos. Uma fábrica chinesa leva essa disputa para dentro dos países: deixa de ser apenas concorrência de importados e passa a envolver empregos, fornecedores e governos locais.

10) Uma saída para a China, uma disputa para o mundo

10.1) Industrialização, emprego e dependência nos países receptores

Os casos examinados apontam em direções diferentes. Ain Sokhna recebeu fábricas, porto e uma zona industrial; a Indonésia ligou a exploração do níquel ao processamento e à produção de baterias; Camaçari recuperou uma área automobilística abandonada; Hungria e Tailândia ampliaram cadeias já existentes. Há empregos, investimentos e infraestrutura já existentes ou ainda projetados. Também existe o risco de que as etapas de maior valor permaneçam concentradas na China, enquanto o país receptor oferece terra, energia, subsídio e trabalho.

Dependência e interdependência não são a mesma coisa. Nenhum país moderno produz sozinho todos os componentes de um automóvel, uma bateria ou um painel solar. Importar máquinas e materiais não prova fracasso. A dependência aparece quando decisões fundamentais, conhecimento, financiamento e alternativas de fornecimento permanecem fora do alcance nacional. Um polo torna-se mais autônomo quando consegue formar trabalhadores, desenvolver fornecedores, adaptar tecnologia e negociar com mais de um parceiro.

10.2) A internacionalização como defesa do crescimento chinês

Para a China, a rede mundial de fábricas responde a um problema objetivo. O mercado doméstico cresce mais lentamente do que parte de sua capacidade industrial; a crise imobiliária limita uma antiga fonte de expansão; a competição comprime margens; o imperialismo fecha mercados e tecnologias. Produzir no exterior permite alcançar consumidores, reduzir tarifas, usar acordos comerciais e preservar encomendas para máquinas e componentes fabricados dentro da China.

O movimento é uma defesa do crescimento, mas não uma retirada. Os dados de 2025 mostram US$ 73 bilhões em investimentos externos concluídos e exportações chinesas ainda muito maiores. Desde a pandemia, a capacidade produtiva instalada na China cresceu mais rapidamente que a produção instalada no exterior. A cadeia global continua tendo um centro chinês, mesmo quando algumas etapas se espalham.

O cerco também não desaparece. Os Estados Unidos podem ampliar regras de origem e controles tecnológicos; a União Europeia pode investigar subsídios; países receptores podem exigir conteúdo local; o próprio governo chinês pode restringir a transferência de tecnologias consideradas sensíveis. A internacionalização reduz a eficácia de uma tarifa aplicada na fronteira, mas cria novas disputas sobre dados, patentes, financiamento e controle das subsidiárias.

A divisão mundial do trabalho entra em uma nova etapa. Durante décadas, a China recebeu fábricas estrangeiras, aprendeu, construiu fornecedores e tornou-se a maior potência manufatureira. Agora, empresas chinesas percorrem o caminho inverso e levam partes desse sistema a outros países. A conquista de tecnologia e autonomia pelos novos polos dependerá da luta política em cada lugar. Para a China, levar parte da indústria para outros países amplia mercados e sustenta o desenvolvimento. Para o restante do mundo, a questão decisiva é quem controlará a tecnologia, a logística e os benefícios da produção que está sendo reconstruída.