05.06.2026

Brasil, como nasceu o país do futebol?

Copa do Mundo

Luciana Soares

O Brasil é a única superpotência do futebol mundial — e chegou a esse posto enfrentando o atraso econômico nacional, a pressão do imperialismo e os abusos dos cartolas e governantes contra nossa arte

O Brasil é, sem dúvidas, a maior força do futebol mundial. O País é favorito em todas as Copas do Mundo, revela os jogadores mais habilidosos do planeta e, sendo uma máquina de produzir craques, poderia preparar vários times diferentes e todos disputarem o título mundial. É a maior nação campeã, com cinco conquistas. Mesmo sendo um país pobre, de capitalismo atrasado, esmagado pela opressão imperialista, é a maior potência do futebol — uma anomalia, se considerarmos que outros sul-americanos, como Argentina e Uruguai, também são potências sem os recursos, a estrutura e o dinheiro do futebol europeu.

Como afirmou o jornalista esportivo gaúcho Abrão Aspis, “todos os países nos invejam, mas como não podem competir conosco, compram nossos jogadores. No universo do futebol, o Brasil é a única superpotência” (Futebol Brasileiro – Do início amador à paixão nacional, 2006). Para chegar a essa situação, porém, os brasileiros tiveram de enfrentar gigantescos obstáculos: o atraso econômico nacional, as contradições dele decorrentes, a pressão do imperialismo contra o futebol brasileiro e os abusos dos cartolas e governantes corrompidos contra o esporte genuíno. É preciso explicar o processo de formação do futebol no País e suas principais etapas até o nível de “única superpotência”.

Os primeiros passos

O futebol como existe hoje é uma criação da Inglaterra, em meados do século XIX. No Brasil, o imperialismo britânico era dominante na economia, e funcionários de empresas inglesas — que dominavam energia, gás, portos, bancos e transportes — praticavam o esporte. Foi Charles Miller quem lutou ativamente pela implantação do futebol em solo nacional. Paulista, filho de inglês com brasileira, estudou na Inglaterra e retornou em 1894 com bolas e fardamentos, convencendo o São Paulo Athletic, clube de críquete, a formar o primeiro time de futebol da história do Brasil. O esporte surgiu como coisa da elite do dinheiro, fundado por jovens ricos e imigrantes europeus — Mackenzie College, Germânia, Internacional.

Mas rapidamente se espalhou, seguindo a trilha da industrialização e da formação da classe operária. Em 1901 surge a Liga Paulista de Futebol. Nas três primeiras competições (1902, 1903, 1904), o São Paulo Athletic dos ingleses foi campeão. Em 1905, porém, o Clube Atlético Paulistano superou a hegemonia inglesa. Monteiro Lobato registrou que aquela luta tinha para a população “um significado moral dez vezes maior que a eleição de um presidente da República”. Já se apresentava a característica central do esporte: a luta de classes dentro e fora das quatro linhas. No Rio surgiram Fluminense, Botafogo, Bangu e América, e a primeira competição, em 1906, teve predominância do Fluminense, de Oscar Cox — o Charles Miller carioca. Não por acaso, paulistas e cariocas, das duas maiores cidades industriais, passaram a disputar entre si.

Friedenreich e a popularização

Até a década de 1910, os brasileiros ainda estavam abaixo de europeus, uruguaios e argentinos. Isso mudou com Arthur Friedenreich, o primeiro craque brasileiro, filho de um rico comerciante alemão com uma lavadeira negra — o primeiro esboço de um futebol tipicamente brasileiro, produto da mestiçagem. Em 1911, o Sport Club Americano de Santos derrotou um combinado uruguaio por 3 a 0, a primeira vitória brasileira sobre um quadro estrangeiro. Em 1913, vitória sobre a Argentina em Buenos Aires; em 1914, a Seleção estreou em jogos oficiais batendo a Argentina por 1 a 0 na Copa Roca. Os adversários apelidaram Fried de El Tigre. Bicampeão sul-americano em 1919 e 1922, foi artilheiro da primeira conquista, carregado nos braços pela torcida após vencer o Uruguai.

Nesta época surgiram clubes fundamentais: Corinthians (1910, por operários), Santos (1912), Palmeiras (1914, por imigrantes italianos), Flamengo (1911, cisão do Fluminense), Vasco (1915). O que começara como esporte de elite rapidamente se popularizou: Bangu e Corinthians eram times de operários; o Vasco formava elencos com trabalhadores e comerciários da Zona Norte; Friedenreich era mulato. Mário Filho escreveu que “o povo descobria que o futebol deveria ser de todas as cores, futebol sem classe, tudo misturado, bem brasileiro”.

A popularização não foi pacífica. Em 1921, o presidente Epitácio Pessoa pediu à CBD que não levasse mulatos ao sul-americano na Argentina, para projetar “outra imagem” do Brasil — e Friedenreich não disputou. Em 1923, o Vasco foi campeão carioca com um time de negros, mulatos e operários; em seguida, a AMEA redigiu estatuto proibindo jogadores de profissões “menos nobres”. Mas o negro pobre, para jogar contra a dureza do futebol branco e europeu e a arbitragem que favorecia os ricos, desenvolveu o drible: surgia o futebol-arte, com gingado, um patrimônio dos brasileiros. A popularização também levou à profissionalização: as receitas de bilheteria permitiram aliciar craques, num sistema mascarado conhecido como Amadorismo Marrom.

O início das Copas

Em 1930, na primeira Copa, no Uruguai, o futebol no Brasil já era um esporte de massas. Os europeus sabotaram a competição por ser na América do Sul; o Uruguai, bicampeão olímpico, saiu vitorioso. O Brasil teve participação discreta, e a explicação é política: a cisão entre cariocas e paulistas. Sem jogadores de São Paulo, como Friedenreich, o Brasil perdeu da Iugoslávia e não passou de fase. Não fosse a briga interna, poderia ter sido campeão — nos dois anos seguintes venceu duas Copas Rio Branco contra os uruguaios.

A profissionalização

O ano de 1933 marca o início da profissionalização. Com o futebol sul-americano em evidência, era preciso oferecer garantias aos jogadores, na mira dos ricos clubes europeus. Para os europeus, comprar craques sul-americanos era mais barato do que adquirir bons atletas da Europa. A profissionalização foi a forma de conter a pirataria estrangeira e resolver o “amadorismo marrom”. Como destaca Aspis, instalava-se a “Espiral da Competência Futebolística”: a qualidade evoluía, atraía público e os clubes com dinheiro contratavam e aperfeiçoavam melhores jogadores.

Na Copa de 1934, na Itália de Mussolini, São Paulo participou com apenas quatro jogadores, em meio ao conflito sobre a profissionalização. Atletas do Palestra Itália chegaram a ser escondidos numa fazenda cercada por guardas armados para não serem convocados. A base da Seleção foi o Botafogo, do amadorista Carlito Rocha. Os brasileiros perderam por 3 a 1 para a Espanha e foram eliminados logo na estreia, restando apenas a boa apresentação de Leônidas da Silva, o Diamante Negro. A Copa, jogada política do general Vaccaro, terminou com os italianos campeões em casa.

Leônidas da Silva e as massas

Os fiascos das duas primeiras copas não refletiam a qualidade do futebol nacional, e sim a confusão na administração. Na década de 1930, o Brasil já era potência, com Leônidas — goleador e criador da “bicicleta” — e Domingos da Guia, considerado por muitos o maior defensor da história, que preferia bons passes e dribles a chutões.

Na Copa de 1938, na França, sem as crises das edições anteriores, o Brasil venceu a Polônia por 6 a 5 (três gols de Leônidas) e a Tchecoslováquia, chegando à semifinal contra a Itália sem Leônidas, lesionado. Perdeu por 2 a 1, num jogo polêmico, marcado por um pênalti inexistente de Domingos da Guia sobre Piola. O lateral relatou que o juiz suíço se aproveitava de os brasileiros não conhecerem as regras nem o idioma. Domingos foi categórico: “se nós tivéssemos o Leônidas, nós brincávamos com os italianos. O Leônidas era o Pelé de hoje”. O Brasil venceu a disputa de terceiro lugar contra a Suécia por 4 a 2; Leônidas, recuperado, foi artilheiro com sete gols e melhor jogador do torneio.

A década de 1930 foi quando o futebol se tornou um esporte de massas no Brasil — e foi a partir daí que a participação na Copa começou a ser importante. Pesou também a ampliação do rádio, iniciado em 1923, e a própria Revolução de 1930. Leônidas foi a expressão disso: ídolo popular no Rio e em São Paulo, campeão por Vasco, Botafogo, Flamengo e São Paulo, onde viveu o auge da carreira nos anos 1940.

1940 e os craques sem copas

O amadurecimento continuou na década de 1940, mas a Segunda Guerra impediu Copas. Com Leônidas e Domingos, somados a craques como Ademir de Menezes, Heleno de Freitas, Zizinho, Tesourinha e Jair Rosa Pinto, o Brasil chegaria com força ao título. Os principais times do período foram o “Rolo Compressor” do São Paulo e o “Expresso da Vitória” do Vasco. Do ponto de vista técnico, o futebol nacional havia atingido um nível nunca visto, e o esporte já era um verdadeiro fenômeno de massas — o que precederia a década de 1950.

1950: a tragédia do Maracanaço

A Copa voltou em 1950, 12 anos depois. A Europa estava destruída, e o Brasil já era considerado o melhor futebol do mundo, o que levou a FIFA a aceitar a realização em território nacional. A edição transformou a Copa num verdadeiro evento de massas: “a partir de 1950, no Brasil, os mundiais de futebol passaram a ser uma verdadeira festa do esporte”, afirma Orlando Duarte. Para a grandeza do acontecimento construiu-se o Maracanã, então o maior estádio do mundo. A direita golpista, que se faria presente em 1954 e 1964, procurou impedir a obra — situação parecida com a de 2014 —, indicando a luta para que a Copa não favorecesse o movimento nacionalista.

O Brasil era o grande favorito, com o ataque de Zizinho, Jair e Ademir e a melhor defesa da época. No quadrangular final, goleou a Suécia por 7 a 1 e a Espanha por 6 a 1. Bastava o empate contra o Uruguai. O Maracanã estava lotado além da capacidade — oficialmente 173.850 torcedores. A partida foi tensa: o Brasil abriu o placar, mas os uruguaios empataram e Ghiggia, aos 34 do segundo tempo, calou o estádio. O Uruguai foi bicampeão no episódio que ficou conhecido como Maracanaço.

Diante da paixão das massas, a decepção assumiu grandeza colossal, e a imprensa linchou os jogadores. Três fatores, porém, não ganharam destaque. Primeiro, o assédio constante e a desorganização promovida pelos jornais, que pressionaram o técnico Flávio Costa a alterar defesa e meio-campo titulares atendendo à cartolagem carioca. Segundo, a arbitragem: o inglês George Reader encerrou a partida quando Ademir ganhava no alto e poderia empatar — em dois mundiais seguidos, 1938 e 1950, erros de arbitragem prejudicaram a Seleção que apresentava o melhor futebol, e entre o povo surgia a concepção de que o futebol brasileiro era alvo de conspiração. Terceiro, os linchamentos escondiam que o Brasil conquistara sua melhor posição até então, o vice, com Ademir artilheiro de nove gols.

A decepção de 1954

Os brasileiros chegaram à Suíça em 1954 com nova geração: Nilton Santos, Didi, Djalma Santos, Julinho Botelho. Foi a primeira Copa com as cores verde e amarela — o azul e branco foi abandonado por suposta “má sorte” de 1950. Surgia a Seleção Canarinho. Nas quartas, a Seleção enfrentou a Hungria de Puskás e Kocsis, um dos melhores elencos de todos os tempos. Antes do jogo, a politicagem entrou em cena: os jogadores tiveram de ouvir discursos como “vamos vingar hoje nossos mortos de Pistóia” e beijar a bandeira — quem não fizesse era estigmatizado como comunista. A partida, batizada de “Batalha de Berna”, teve três expulsões; o Brasil perdeu por 4 a 2, consequência da pressão psicológica e da incompetência dos cartolas da CBD, que, segundo Nilton Santos, faziam compras e nem conheciam o regulamento. Na final, a Alemanha Ocidental venceu a Hungria por 3 a 2 — conquista politicamente conveniente ao “milagre alemão” patrocinado pelo imperialismo norte-americano na Guerra Fria, e cercada por suspeitas nunca provadas de doping.

Golpistas contra o futebol brasileiro

As derrotas de 1950 e 1954 alimentaram a campanha da direita golpista contra o movimento nacionalista. Diversas “teorias” buscavam explicar o fracasso, acusando justamente as características brasileiras — o futebol-arte, patrimônio da população mestiça, negra e operária. Um relatório “científico” enviado à CBD em 1956 colocava a culpa na miscigenação e acusava o negro de ser psicologicamente fraco. Nilton Santos relatou a conclusão: “o time tinha que ser o mais branco possível”.

Os comentaristas não estavam longe da verdade, mas o problema da “alma” tinha de ser explicado socialmente, não psicologicamente. O jogador brasileiro sempre foi o homem pobre, saído das favelas e da periferia, oprimido na sociedade burguesa pela sua falta de cultura — uma condição criada pelos próprios “homens cultos”, cuja “cultura” não passa, na maioria das vezes, de uma impostura defendida com o diploma de universidade. O ataque cerrado da imprensa minava a autoconfiança dos talentosos. A debilidade do jogador brasileiro é a sua pesada opressão de classe. Daí que aqueles com maior estabilidade emocional se destacaram — o melhor exemplo é Pelé, filho de uma lavadeira que se tornou o rei do futebol mundial.

Às vésperas da Copa de 1958, na Suécia, a campanha era intensa. Em sua última crônica antes do torneio, Nelson Rodrigues cunhou a expressão que se popularizou: “por ‘complexo de vira-lata’ entendo a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem”. O cronista, porém, não entendia o centro da questão: a campanha de desmoralização não era criação do povo, e sim do movimento golpista e pró-imperialista que buscava derrotar a força do nacionalismo brasileiro, reproduzida por uma imprensa venal e por uma classe média bem-pensante que se ressente de sua inferioridade no maior culto popular brasileiro, o futebol-arte.

1958: a consagração do futebol arte

O escolhido para comandar a Seleção foi Vicente Feola. Entre os convocados estavam Nilton Santos, Didi, Zagallo e nomes como Pelé, Garrincha, Zito e Vavá, postos na reserva pela influência da campanha contra o negro. A Seleção iniciou majoritariamente branca, à exceção de Didi. Após vencer a Áustria e empatar com a Inglaterra, Nilton Santos liderou um grupo de jogadores que foi à comissão técnica pedir a entrada de Garrincha, Zito e Pelé. Feola alterou a escalação.

O jogo contra a União Soviética, favorita ao título, foi histórico. A melhor dupla da história, Pelé e Garrincha, estreou e encantou o mundo, enfrentando o futebol “científico” soviético. Foram “os três minutos mais incríveis da história do futebol”: com Garrincha dando show, Vavá marcou cedo, e o Brasil venceu por 2 a 0. Nelson Rodrigues escreveu que “a desintegração da defesa russa começou exatamente quando Garrincha tocou na bola”. Mané libertou o jogador brasileiro de seus complexos e do domínio do cartola. Considerado um “peladeiro” por “driblar excessivamente” — reflexo da campanha contra o futebol nacional —, rebateu os críticos em campo, justamente pela sua ingenuidade e inocência, que não enxergava superioridade no adversário: chegou a perguntar a Feola se as jogadas haviam sido combinadas com os russos.

Nas quartas, o Brasil bateu o País de Gales por 1 a 0, gol de Pelé, de 17 anos. Nas semifinais, contra a França, melhor ataque da competição, o espetáculo: 5 a 2, três gols de Pelé. O jornal L’Équipe escreveu que “os brasileiros pareceram ter vindo de outro planeta”. A Seleção inventava o chamado “futebol total”, atribuído falsamente à Holanda de 1974. Na final, contra a anfitriã Suécia, os donos da casa abriram o placar logo aos quatro minutos, como um fantasma de 16 de julho. Mas Vavá empatou aos oito, e o Brasil venceu por 5 a 2, com mais dois gols de Pelé — incluindo o do “chapéu” em Gustavsson, um dos mais bonitos da história. O Brasil era campeão do mundo pela primeira vez. A “zica” acabou. O futebol-arte, do negro, do mestiço e do operário, afirmava-se para nunca mais sair do topo.

A Copa marcou a chegada de João Havelange, futuro presidente da FIFA, à CBD, e de Paulo Machado de Carvalho, o “Marechal da Vitória”, à chefia da delegação, com planejamento meticuloso. A conquista mostrava o amadurecimento do futebol nacional em estrutura, organização e qualidade. Em 1959 estreava a Taça Brasil, primeiro campeonato nacional entre clubes, vencido pelo Bahia.

1962: maior força do futebol mundial

No Chile, Havelange manteve a comissão, com Aimoré Moreira no lugar de Feola, doente, e a base campeã. As críticas da imprensa recaíram sobre os “veteranos” Djalma Santos, Didi e Nilton Santos. Mas a comissão não se intimidou e estava certa. Após vencer o México, Pelé se lesionou contra a Iugoslávia e ficou fora da Copa. O substituto foi Amarildo, “O Possesso”. Contra a Espanha, dois gols de Amarildo viraram o jogo após Garrincha “resolver jogar por ele e pelo Pelé”.

Foi a Copa de Garrincha. Nas quartas, vitória sobre a Inglaterra por 3 a 1, dois gols dele, numa partida em que o selecionado encurralou os ingleses enquanto Mané, cercado por quatro ou cinco jogadores, abria caminho para os gols. O técnico inglês Walter Winterbottom desabafou: “não esperávamos encontrar um jogador como esse Garrincha, esse rapaz é de outro planeta”. Nas semifinais, contra o anfitrião Chile, diante de massacre psicológico de toda a nação, dois gols de Garrincha, que foi expulso após revidar — como todos os grandes jogadores brasileiros — e ainda levou uma pedrada na cabeça ao sair. Absolvido pela FIFA, disputou a final contra a Tchecoslováquia, gripado. Amarildo empatou, Zito e Vavá marcaram, e o Brasil venceu por 3 a 1: era bicampeão. Garrincha foi eleito melhor jogador e artilheiro. Do ponto de vista político, foi uma vitória do movimento nacionalista contra a direita golpista que tramava contra João Goulart, dois anos antes do golpe.

Nesse período, o Brasil tinha o melhor futebol do planeta. O Santos de Pelé era o melhor time do mundo; o Palmeiras tinha sua “Academia”; o Botafogo reunia cinco titulares da Seleção; surgia o Cruzeiro de Tostão, contribuindo para a nacionalização das competições. Os clubes brasileiros passaram a ser convidados para excursões e seus jogadores, comprados.

A bagunça do futebol brasileiro

Esse período não se refletia na organização do esporte. João Saldanha denunciava em 1961: “não há dúvida de que somos campeões do mundo em técnica e disciplina, mas também em desorganização e bagunça”. Criticava a CBD por não unificar o calendário das federações e por não colocar a Seleção “em atividade”. Os cartolas, os administradores, sempre foram um sistema de desorganização e crise do esporte brasileiro. A bagunça era também produto do capitalismo atrasado do Brasil, incapaz de promover competições organizadas, e do tamanho continental do País. Surgiam as primeiras competições continentais; a Taça Brasil (1959) e o “Robertão” (1967) davam os primeiros passos. Mesmo com a criação do Campeonato Brasileiro em 1971, a ditadura militar bagunçaria tudo para favorecer seus interesses.

A bagunça na Copa de 1966

A desorganização explica em parte o fiasco de 1966, na Inglaterra. Após o título de 1962, a Seleção passou nove meses sem jogar e mandou um time mineiro “enxertado” à Copa América de 1963, que naufragou — exatamente o que Saldanha denunciara. A preparação para o Mundial foi um caos: mais de 40 jogadores convocados para agradar cartolas (houve até o caso do “Ditão errado”, chamado por engano e mantido na lista), troca do preparador físico por um professor de judô e cortes de craques como Carlos Alberto Torres às vésperas. Nelson Rodrigues alertava: “80 milhões de brasileiros querem uma equipe básica, e ninguém conhece esse time”.

Os europeus, para barrar o futebol brasileiro, reestruturaram seu jogo passando para a violência. Logo no primeiro jogo, contra a Bulgária, os búlgaros caçaram Pelé, que, machucado, ficou fora da partida seguinte. O Brasil venceu a estreia com gols de falta de Pelé e Garrincha — a última vez que a dupla jogou junta, nunca tendo perdido pela Seleção. Depois, perdeu para a Hungria (3 a 1) e para Portugal de Eusébio (3 a 1), entrando em campo com três times diferentes em três jogos. Pelé voltou contra os portugueses e “apanhava impiedosamente”. O Brasil foi eliminado na fase de grupos. Nelson Rodrigues sentenciou: “o time do Brasil não foi derrotado pela Hungria, nem por Portugal. A derrota está pela burrice da Comissão Técnica”.

A Copa do Apito

Rodrigues batizou o torneio de “a copa do apito”, diante do escândalo da arbitragem em favor dos ingleses: “a FIFA escalou oito juízes ingleses para os jogos do Brasil”. “Valeu tudo contra o Brasil e, sobretudo, contra Pelé. O crioulo foi caçado”, denunciou, lembrando que o craque sofreu verdadeira tentativa de homicídio sem o juiz reagir. O favorecimento aos europeus foi nítido também em Inglaterra 1 x 0 Argentina e Alemanha 4 x 0 Uruguai. Na final, a Inglaterra venceu a Alemanha por 4 a 2 com um gol inexistente e outro irregular. Para jornalistas estrangeiros, quem venceu aquela Copa foi Mr. Stanley Rous, presidente da FIFA.

As feras de Saldanha

Para conquistar o tricampeonato em 1970, o Brasil teria de vencer o antifutebol violento e retranqueiro organizado pelos europeus, as desordens da ditadura e dos cartolas e a arbitragem. Os craques, cansados de apanhar calados, aprenderam a revidar contra o “futebol força”. Na Seleção, a marca foi a chegada de João Saldanha, o “João Sem Medo”, dirigente do Botafogo e ex-líder sindical do PCB, que montou as “Feras de Saldanha”. Apesar de a escolha ter sido uma jogada da CBD para poupar a Seleção da imprensa, a equipe foi alvo de ataques sem precedentes, sob a alegação de uma “crise do escrete” — para Nelson Rodrigues, uma crise apenas “gráfica, impressa, de colunistas”.

O time de Saldanha não levava desaforo para casa e apresentava excelente futebol: até hoje tem o melhor aproveitamento em eliminatórias de Copa, 100%, seis vitórias em seis jogos, 23 gols a favor e dois sofridos. Saldanha foi à Europa e denunciou aos quatro ventos que “o futebol europeu é uma carnificina”, coagindo os adversários. Mesmo assim, por interferência da ditadura militar, foi derrubado às vésperas da Copa, em 1970 — com a melhor campanha eliminatória da história. Suspeitava-se que denunciava os crimes do regime em suas excursões, algo que ele confirmaria; ou que caiu por não ceder aos cartolas. Quando Médici sugeriu o nome de Dario, Saldanha retrucou: “eu não escalo ministério, ele que não escale meu time”. Nelson Rodrigues denunciou “uma guerra suja de tantos contra um só”.

Futebol arte vs. futebol força

No lugar de Saldanha entrou Mário Zagallo, que pouco alterou a formação. A Seleção partiu sob vaias da imprensa, e Rodrigues escreveu: “se me perguntarem o que deverá fazer a seleção para ganhar a Copa, direi: ‘não nos ler'”. No México, Zagallo contava com o melhor conjunto de jogadores até então reunido: Pelé, Gérson, Rivelino, Tostão, Jairzinho, Clodoaldo, Carlos Alberto Torres.

A imprensa difundia desde 1966 que o futebol brasileiro estava “ultrapassado” e que na Europa se jogava um futebol “moderno”, mais veloz. Na verdade, o futebol europeu era violento e retranqueiro, e sua velocidade servia apenas para contra-ataques, sem lances geniais. Surgia a oposição entre o futebol-arte, habilidoso, e o futebol-força, físico e bruto. O Brasil venceu todos os adversários: Tchecoslováquia, Inglaterra campeã (1 a 0, gol de Jairzinho, na partida da defesa imortal de Banks sobre Pelé), Romênia, o Peru de Didi, o Uruguai nas semifinais — quando Pelé protagonizou o drible de corpo sobre Mazurkiewicz — e a Itália na final, por 4 a 1. Jairzinho marcou em todas as partidas, feito único até hoje; o quarto gol, de Carlos Alberto, após passe de Pelé, é um dos mais bonitos da história. O Brasil era o primeiro tricampeão e levava a taça Jules Rimet definitivamente.

Saldanha comemorou: “a arte venceu. Foi a vitória do futebol que o Brasil joga, sem copiar ninguém, fazendo da arte dos seus jogadores a sua força maior”. Os prognósticos otimistas sobre o reconhecimento da superioridade brasileira, porém, não se confirmaram. A cada derrota, a imprensa — cada vez mais instrumento do capital estrangeiro e dos grupos econômicos — lança uma campanha desmoralizante, e surgem os “melhores que Pelé”, fabricados por campanhas publicitárias caríssimas a serviço dos negócios das corporações imperialistas.

A importância da Copa de 1970

A Copa de 1970 é um marco. Foi a última de Pelé, consagrado o maior de todos os tempos e revolucionário na forma de jogar. Mostrou os indícios de dois fatores que explicam a “seca” de 24 anos até 1994: a interferência da ditadura militar e a organização do esporte, em nível internacional, como grande negócio especulativo. Foi a primeira Copa transmitida ao vivo pela televisão — o que marcaria o crescimento do futebol como negócio capitalista de grande porte e o aumento do controle imperialista que prejudicaria os brasileiros. E marcou o surgimento do verdadeiro “futebol moderno”: a ideia do “futebol total”, expressão inventada pelos holandeses em 1974, foi na verdade levada ao auge pela Seleção de 1970, que jogou marcando todo o campo, abandonando os sistemas numéricos rígidos.

Os prejuízos da Ditadura

A interferência militar começou após 1966, com o Serviço Nacional de Informações investigando o insucesso e Havelange chamando militares à direção da CBD. Até 1970 a interferência foi discreta — o que explica a escolha do comunista Saldanha. Buscando popularidade com o tricampeonato, Médici incluiu o futebol no Plano de Integração Nacional. Em 1971 a CBD criou o Campeonato Brasileiro, extinguindo a Taça Brasil e o Robertão, com obras faraônicas em regiões pouco desenvolvidas.

A criação de uma competição unificada era defendida há anos, mas não ocorreu como deveria. Com a crise do “milagre econômico” a partir de 1973 e o mau resultado da Arena em 1974, os militares transformaram o Brasileirão num balcão de negócios político: surgiu o ditado “onde a Arena vai mal, um time no nacional”. A liga saltou de 54 participantes em 1976 a 94 em 1979, com clubes nanicos. O resultado foi prejuízo aos grandes clubes, queda de público e renda e o início da dependência dos clubes em relação à televisão e aos patrocínios — um problema que se tornaria norma. Saldanha denunciava o crescimento do controle das empresas: “assim, não precisaremos mais de estádios. Bastarão um anúncio de bebida e uma câmera de televisão”.

A Copa de 74

Na Alemanha Ocidental, o Brasil chegou com delegação recheada de militares, em quadro de crise e desorganização. Do escrete tricampeão, apenas Jairzinho, Piazza e Rivelino; Pelé havia se aposentado da Seleção em 1971. Com time defensivo, já influenciado pela retranca dos anos mais duros da ditadura, o Brasil fez dois jogos péssimos (0 a 0 com Iugoslávia e Escócia), bateu o Zaire e avançou. Na fase seguinte, venceu Alemanha Oriental e Argentina, mas perdeu por 2 a 0 para a Holanda de Cruijff, o “Carrossel holandês”. Os europeus buscavam inovações táticas que vencessem a habilidade brasileira: o “futebol total” incorporava o jogo coletivo desenvolvido pelo Brasil em 1970, com jogadores cumprindo várias funções. Essa seleção holandesa seria a base de todo o futebol europeu contemporâneo, cujos princípios se infiltraram no futebol brasileiro. O Brasil ainda perdeu o terceiro lugar para a Polônia.

A retranca e o roubo de 1978

A derrota de 1974 fortaleceu o “futebol força” no Brasil. Saldanha denunciava em 1976 que quase todos os times jogavam na retranca. Em 1978, na Argentina, o técnico foi o militar capitão Cláudio Coutinho, que substituiu Oswaldo Brandão e levava uma visão “moderna” inspirada no carrossel holandês, encaixando-se na mentalidade da CBF do almirante Heleno Nunes. Coutinho engessou a Seleção, formada por jogadores habilidosos num esquema europeu.

No grupo final, o Brasil venceu Peru e Polônia e empatou com a Argentina, mas foi eliminado sem perder um jogo, num dos maiores roubos da história. A Argentina precisava vencer o Peru por mais de três gols e fez 6 a 0, num resultado escandaloso. A compra dos jogadores peruanos foi comprovada 40 anos depois, em 2018, quando José Velásquez declarou ao jornal Trome que seis companheiros “se venderam”, citando a visita de Videla e de Henry Kissinger ao vestiário peruano antes da partida. O Brasil ficou em terceiro, “campeão moral”, segundo Coutinho. Saldanha denunciava a imitação do esquema inglês do “futebol força”: “os técnicos da Escola de Educação Física viram os ingleses fazendo o 4-4-2 e instalaram a tática no Brasil”. O exemplo do estilo era o Internacional gaúcho, tricampeão brasileiro (1975, 1976, 1979), influenciado pelo futebol de força do Uruguai e da Argentina.

A abertura e o futebol-arte

A virada de 1979 para 1980 trouxe mudanças. Golpeados pela crise do petróleo e pela oposição do movimento operário e estudantil, os militares iniciavam a transição. A fonte do gigantesco Brasileirão secou e a deficitária CBD foi extinta, surgindo a CBF em 1979. O Brasileirão recuou de 94 clubes em 1979 para 44 em 1980, com a Taça de Ouro. Iniciava-se a reorganização do futebol nacional, que teria episódio importante na formação do Clube dos 13 em 1987.

Na Seleção, Coutinho não sobreviveu à eliminação na Copa América de 1979 e foi substituído por Telê Santana, que apostou numa geração politizada — Sócrates, Zico, Júnior, Éder, Reinaldo — em prol da transformação do País. Os ideais de preparação física intensa perderam importância, exaltando o talento individual. Sócrates liderava a Democracia Corinthiana; Zico criara o sindicato de atletas no Rio; Reinaldo era crítico aberto do regime. Era um futebol total diferente, em que a liberdade se valia do talento individual, força-motriz do coletivo.

A Copa de 1982

Antes da Copa, em 1981, o Brasil passou por cima de todos na Europa, vencendo a Inglaterra em Wembley pela primeira vez e ganhando da França e da Alemanha. Na Espanha, o Brasil era o mais cotado, com Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo, Júnior. “Como em 50, a nossa seleção parecia imbatível”, lembra Mario Moraes. Venceu União Soviética, Escócia e Nova Zelândia na primeira fase, e a Argentina de Maradona (3 a 1) na segunda. Bastava o empate contra a Itália, mas uma série de erros individuais marcou a eliminação por 3 a 2, com três gols de Paolo Rossi — a “Tragédia do Sarriá”. Saldanha, mesmo apontando a falta de preparo físico, defendeu o estilo: “o futebol-arte se impôs. Lembram de 1978? Estávamos jogando o ‘futebol-força’, para mim o futebol estúpido. Agora, tudo é lucro. Já fizemos a festa mais bonita”. A derrota reacendeu o complexo de inferioridade nacional, passando a privilegiar a dureza das marcações cerradas.

O início da globalização

O início dos anos 1980 trouxe a globalização e a ofensiva neoliberal. O futebol já era um grande empreendimento capitalista. Saldanha temia que tomasse “os rumos do boxe profissional” e rebatia a ideia de que o futebol seria “um negócio empresarial como outro qualquer”. Além dos patrocínios e das transações gigantescas, o Brasil começou a perder seus craques para clubes ricos da Europa, principalmente da Itália, que aprovara lei para aumentar a participação de estrangeiros. Já em 1982, Falcão jogava na Roma; depois vieram Zico, Sócrates e tantos outros. A partir do momento em que o futebol se tornou empreendimento de especulação capitalista controlado pelos monopólios, o País — máquina de produzir craques — tornou-se exportador, perdendo seus jogadores cada vez mais cedo.

A Copa de 1986

No México, o processo de globalização ficou claro: a maioria dos principais jogadores da Seleção já havia passado pelo futebol europeu. A crise financeira dos clubes brasileiros, agravada pelos projetos megalomaníacos da ditadura, dificultava competir contra os ricos europeus. Telê Santana voltou ao comando e buscou manter a base de 1982, agora mais velha e com lesões (Zico, Cerezo). Os cartolas prejudicaram a preparação, agendando amistosos na Europa em que os jogadores viajaram na classe econômica e foram surrados por Alemanha e Hungria.

A Seleção passou a primeira fase sem sofrer gols, com destaque para Careca, e goleou a Polônia por 4 a 0 nas oitavas. Nas quartas, contra a França de Platini, 1 a 1 no tempo normal — Zico perdeu um pênalti. A decisão foi para os pênaltis: Sócrates, Platini e Júlio César erraram, e o Brasil foi eliminado, tendo sofrido apenas um gol no torneio. As duas derrotas de Telê em Copas levariam ao aumento da campanha contra o futebol-arte, ocasionando a “Era Dunga”.

Mudanças no futebol brasileiro

Em 1986, com 80 participantes, o Brasileirão gerou nova revolta. Em 1987 surgiu o Clube dos Treze, formado pelos principais clubes do País, com o objetivo de organizar um certame com número reduzido de equipes. Causou cisão no campeonato daquele ano, com a Copa União. Vendo que não podia prescindir dos grandes, a CBF fez um acordo para enxugar o Brasileirão e, em 1989, criou a Copa do Brasil para abranger os menores. Surgia uma situação contraditória: significava aumento da concentração, mas também organização. O Clube dos Treze negociou com a TV Globo as transmissões — iniciando um monopólio que se mostraria prejudicial —, mas o fim da bagunça permitiu melhores prêmios e contenção da evasão de jogadores. O futebol brasileiro começava a se estabilizar. O primeiro clube bem-sucedido na nova era foi o São Paulo de Telê Santana, campeão brasileiro em 1991 e bicampeão da Libertadores e do mundo em 1992 e 1993.

1990 e a Era Dunga

A reorganização se mostrava também na Seleção: em 1989, após 40 anos, o Brasil voltou a vencer a Copa América, com a dupla Romário e Bebeto, gol do título de Romário sobre o Uruguai. Sebastião Lazaroni iniciou a “Era Dunga”, adotando um discurso de que o Brasil deveria atuar como os europeus, privilegiando marcação e preparo físico, com o esquema 3-5-2 e o volante Dunga como nome mais representativo. Pela primeira vez, os convocados jogavam majoritariamente na Europa: 12 dos 22.

Na Itália, ocorreram atritos entre jogadores e dirigentes em torno do dinheiro — na foto oficial, os jogadores taparam a logomarca de uma patrocinadora em protesto pela premiação. Lazaroni dizia: “só com arte não se ganha títulos”. O Brasil venceu Suécia, Costa Rica e Escócia na primeira fase, mas, nas oitavas, contra a Argentina, mostrou ampla superioridade e mandou três bolas na trave. Os argentinos doparam o lateral Branco com uma “aguinha” batizada de tranquilizantes durante atendimento a Giusti, e venceram de contra-ataque com Maradona e Caniggia, por 1 a 0. O Brasil estava eliminado. A Alemanha unificada seria tricampeã.

1994, a conquista do tetra

Nos Estados Unidos, país sem tradição mas com grande infraestrutura, a Copa transformou-se no maior sucesso capitalista até então, com recordes de público e audiência. Nas eliminatórias, a crise: pela primeira vez o Brasil perdeu um jogo (2 a 0 para a Bolívia) e quase ficou fora de uma Copa. Romário, um dos melhores do mundo, estava fora do escrete. No último jogo, contra o Uruguai no Maracanã, a pressão falou mais alto: convocado, ele fez os dois gols da classificação numa das maiores atuações individuais da história.

Desacreditado, o Brasil tinha um time melhor que o de 1990, com Raí, Romário, Bebeto e Zinho, mas o forte continuava sendo a defesa, com Mauro Silva e Dunga no meio. Venceu Rússia e Camarões, empatou com a Suécia, bateu os EUA nas oitavas com um a menos (expulsão de Leonardo) e a Holanda nas quartas por 3 a 2 — Branco, o mais criticado do elenco, marcou o “gol cala-boca” de falta. Nas semifinais, Romário, de 1,68 m, cabeceou para dentro entre gigantes suecos e classificou o Brasil.

A final foi entre Brasil e Itália, dois tricampeões — o vencedor seria o primeiro tetra e praticamente o campeão do século. Jogo truncado, com os goleiros Taffarel e Pagliuca em destaque. Pela primeira vez um título de Copa foi decidido nos pênaltis. Baggio, considerado o melhor de 1993, isolou a última cobrança, e o Brasil conquistou a quarta Copa, tornando-se o primeiro tetracampeão — único país, então, com quatro títulos.

O futebol nacional no topo

Com o tetra, o Brasil voltou ao topo. No País, o futebol se organizava de forma mais lucrativa para enfrentar os ricos europeus. Em 1992 surgiu a parceria Palmeiras–Parmalat, novo paradigma comercial. Surgia uma contradição: o controle capitalista prejudicara o futebol brasileiro por décadas, mas a partir dos anos 1990 a reorganização permitia ao Brasil se reestruturar — favorecido também pela crise neoliberal, que tirou dos europeus seu único grande trunfo, o poder econômico.

Clubes brasileiros conquistaram a Libertadores em 1992, 1993, 1995, 1996, 1997 e 1999 (São Paulo, Grêmio, Cruzeiro, Vasco, Palmeiras), e jogadores brasileiros foram eleitos os melhores do mundo: Romário (1994), Ronaldo (1996, 1997), Rivaldo (1999). A Seleção venceu as Copas América de 1997 e 1999 e disputou três finais de Copa consecutivas — recorde. Mas a tendência seguia sendo a saída precoce: o jovem Ronaldo Nazário deixou o Cruzeiro aos 17 anos para o PSV, indicando a ida cada vez mais cedo dos craques à Europa, antes de se consolidarem no País.

A volta de Zagallo

Parreira deixou a Seleção, e Zagallo, auxiliar do tetra, assumiu. Buscou a inédita medalha de ouro olímpica em Atlanta, em 1996, com Dida, Roberto Carlos e o jovem Ronaldo, mas o Brasil caiu nas semifinais para a Nigéria, após abrir 3 a 1, ficando com o bronze. Ronaldo trocou o PSV pelo Barcelona e foi eleito o melhor do mundo. Após a Olimpíada, a CBF fechou acordo milionário com a Nike — US$ 40 milhões por dez anos. A Nike, marca secundária no futebol antes de 1994, usou o futebol brasileiro para conquistar grandes mercados. Na Copa América de 1997, campanha impecável, com Ronaldo brilhando; após o título, alvo de críticas, Zagallo desabafou: “vocês vão ter que me engolir”. Ainda em 1997 o Brasil conquistou pela primeira vez a Copa das Confederações.

A Copa de 1998

Às vésperas da Copa na França, Romário foi cortado oito dias antes da estreia e atacou Zico e Zagallo. As crises, muitas criadas pela imprensa, tomaram conta da Canarinho. A Copa foi a última sob a presidência do brasileiro João Havelange na FIFA, que indicou o suíço Joseph Blatter como sucessor, eleito por 111 a 80. Definiram-se os moldes atuais: 32 times em oito grupos.

O Brasil venceu Escócia e Marrocos, perdeu para a Noruega e seguiu com desavenças internas (Bebeto, Dunga, Edmundo). Bateu o Chile nas oitavas, a Dinamarca nas quartas (3 a 2, dois gols de Rivaldo) e a Holanda nas semifinais nos pênaltis, com Taffarel defendendo duas cobranças. O clima de “já ganhou” tomou conta. Mas uma situação nunca esclarecida abateu Ronaldo, o melhor da Seleção, que sofreu um colapso no hotel — relatado como convulsão por companheiros. A imprensa anunciou que não jogaria, e Edmundo entraria. Convencido pela comissão técnica, Ronaldo começou titular, mas não foi bem, nem o resto do time, e a França de Zidane venceu por 3 a 0. Zagallo, criticado por escalar Ronaldo, defendeu: “a decisão foi minha. Faria de novo”.

Após a Copa, instaurou-se uma CPI para investigar os acontecimentos e a relação CBF–Nike — a ingerência da multinacional, denúncias de corrupção e a desorganização do futebol. Em 2002, o contrato foi revisto e a Nike perdeu privilégios, como o direito de marcar até 50 amistosos.

Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo

Mesmo perdendo, o Brasil se mostrava a maior força do futebol mundial. Zagallo saiu, e Vanderlei Luxemburgo assumiu. Em 1999, nova Copa América, com seis vitórias e a estreia de Ronaldinho Gaúcho; Rivaldo e Ronaldo foram artilheiros. No fim de 1999, Rivaldo foi eleito o melhor do mundo, e Ronaldo sofreu sua primeira lesão séria no joelho, problema que o acompanharia.

Crise na Seleção

O Brasil não ia bem nas eliminatórias para 2002. Luxemburgo, envolvido em escândalos particulares, deixou o comando após o fracasso na Olimpíada de Sydney. Emerson Leão assumiu, mas a situação piorou: pela primeira vez o Brasil perdeu para o Equador. Por insistência da CBF, Felipão aceitou o comando. Havia clara pressão contra o futebol brasileiro prejudicando o rendimento, enquanto o governo neoliberal de FHC jogava o País em grave crise. O Brasil chegou ameaçado de ficar fora da Copa, classificando-se apenas na última rodada. Felipão acumulava recordes de pressão — um plebiscito popular que só seria aprovado com o título.

A conquista do penta

A Copa de 2002, no Japão e na Coreia do Sul, foi ideia de Blatter para ampliar o futebol na Ásia. O Brasil venceu Turquia, China e Costa Rica na primeira fase; a Bélgica nas oitavas; a Inglaterra nas quartas (2 a 1, com gol de falta por cobertura de Ronaldinho, depois expulso); e a Turquia nas semifinais, com gol de Ronaldo, que se arrastava em campo por lesão muscular. Pela terceira vez consecutiva, o Brasil estava na final.

A final foi contra a Alemanha, que se igualaria ao Brasil enquanto tetra. O goleiro Oliver Kahn, eleito melhor da Copa pela imprensa, zombou: “para ser campeão, o time deles terá de fazer gol em mim primeiro”. A pressão brasileira levou a dois gols de Ronaldo no segundo tempo, o primeiro após falha de Kahn. O Brasil se tornou o primeiro — e, até hoje, único — pentacampeão mundial. Ronaldo, que passara quase dois anos lesionado, foi o artilheiro com oito gols, totalizando 15 em Copas, e foi eleito pela terceira vez o melhor do mundo.