24.08.2026

Grande Sertão: Veredas - 70 anos

‘O diabo na rua, no meio do redemunho’

Mauro Souza

‘O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade

Escrito por João Guimarães Rosa e publicado em 1956, Grande Sertão: Veredas está entre as maiores obras-primas da literatura em língua portuguesa e é um dos marcos da literatura brasileira do século XX. Mais do que um romance sobre o sertão mineiro, é uma obra sobre o homem diante de suas próprias dúvidas: o bem e o mal, Deus e o Diabo, o amor, a violência, a liberdade, o destino e a morte.

Otto Maria Carpeaux, um dos grandes críticos literários do século XX, reconheceu em Guimarães Rosa um escritor que ultrapassava os limites do regionalismo. O sertão de Rosa não é simplesmente um lugar geográfico, mas um espaço capaz de adquirir dimensão universal. Essa passagem do particular ao universal é justamente uma das características mais extraordinárias do romance.

“O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer

aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O  sertão está em toda a parte.”

O crítico Roberto Schwarz, por sua vez, observou que, enquanto em Doutor Fausto, de Thomas Mann, a passagem para o universal se realiza através do destino histórico da Alemanha, em Guimarães Rosa ela é praticamente imediata: do sertão passa-se ao destino humano. O sertão é uma realidade concreta, mas também uma elaboração artística das possibilidades do mundo. Homem e paisagem misturam realidade e símbolo, fazendo com que o regionalismo de Rosa tenha como referência, paradoxalmente, o próprio globo.

É nesse sentido que a história de Riobaldo, um jagunço do interior de Minas Gerais, pode adquirir uma dimensão que ultrapassa completamente a geografia do romance.

O inventor

Ezra Pound, em seu famoso ABC da Literatura, afirma que literatura é “linguagem carregada de significado até o grau máximo”. Os escritores se diferenciam, portanto, pelo modo como trabalham a linguagem e pela capacidade de ampliar suas possibilidades.

Entre os tipos de escritores apresentados por Pound estão os inventores. São os pioneiros, aqueles que descobrem um processo novo, uma nova forma de expressão, uma nova técnica ou um novo uso para a linguagem.

Não se trata simplesmente de escrever bem. O inventor é aquele que modifica as próprias possibilidades da literatura. E foi exatamente isso que Guimarães Rosa fez.

Rosa, ao contrário do que se pode imaginar, não inventava palavras de maneira arbitrária. Sua invenção obedecia a uma lógica linguística rigorosa. O escritor acrescentava sufixos a palavras existentes, criava verbos e substantivos, juntava palavras para produzir novos sentidos, recuperava termos antigos da língua portuguesa, explorava o latim e outras línguas e, sobretudo, transformava tudo isso em matéria de uma fala que parece nascer diretamente do sertanejo.

Tomemos o próprio verbo sertanejar, formado a partir de “sertão”, ou expressões como “estorvo-medo” e “diz-que-diz-que”.

Temos ainda palavras e construções que, retiradas do contexto, poderiam parecer estranhas, mas que dentro da narrativa adquirem uma precisão extraordinária.

“Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano.”

Ou:

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é  coragem.”

A linguagem de Rosa não é um enfeite colocado sobre a história. Ela é parte da própria história. Isso enriquece a obra, de modo que pode ser abordada em diversos aspectos.

Riobaldo não poderia contar sua vida em uma linguagem convencional porque o que ele está tentando fazer é justamente encontrar, pela palavra, um sentido para aquilo que viveu. O leitor, no início, sente um estranhamento no modo como Riobaldo fala e de seu palavreado. No entanto, conforme lê, vai sendo capturado por aquele estilo e logo se vê fisgado e mergulhando no texto.

A obra

O romance é construído como um longo monólogo de Riobaldo, um antigo jagunço que, já velho, conta sua trajetória a um interlocutor silencioso, o “senhor”. Esse ouvinte nunca responde diretamente, e o leitor ocupa justamente esse lugar.

“O senhor ri certas risadas…”

Riobaldo fala. Recorda. Corrige o que acabou de dizer. Volta a acontecimentos passados. Levanta hipóteses. Contradiz a si próprio. E, acima de tudo, duvida. Não é uma narrativa linear no sentido tradicional. A memória de Riobaldo é o caminho pelo qual o romance avança. O que nos devolve ao título do livro: veredas.

O protagonista não está apenas contando o que aconteceu. Está tentando compreender o que aconteceu. É por isso que a pergunta sobre o Diabo retorna tantas vezes. Riobaldo quer saber se o Diabo existe, se realmente fez um pacto com ele e se o acontecimento nas Veredas Mortas foi uma experiência sobrenatural ou simplesmente um momento extremo de sua própria consciência.

“O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? […] Viver é negócio muito perigoso…”

A pergunta nunca é inteiramente resolvida. E talvez não deva ser. Em uma montagem para a televisão, o pacto entre Riobaldo e o Diabo é “concretizado”, mas não é isso que a obra propõe, a dúvida é fundamental para o personagem, para quem a vida está sempre em constante mudança.

O sertão é o mundo

É justamente aí que Grande Sertão: Veredas ultrapassa o regionalismo. O sertão de Rosa é profundamente brasileiro. Seus personagens falam uma linguagem que nasce de uma região específica. Os conflitos estão ligados à vida dos jagunços, às relações de poder, às fazendas, às guerras privadas e à geografia do interior de Minas. Mas nada disso impede que o romance alcance uma dimensão universal. Pelo contrário. É justamente a extrema particularidade do sertão que permite a Rosa alcançar o universal.

Roberto Schwarz observa que a paisagem e o homem em Rosa são simultaneamente realidade e símbolo. O escritor parte do mapa, da língua e dos habitantes de Minas, mas os transforma em algo cuja referência ultrapassa a própria região.

O sertão é o mundo porque os problemas de Riobaldo são problemas humanos. O que é o bem? O que é o mal? Deus existe? O Diabo existe? Somos livres? Existe destino? É possível amar alguém que não podemos compreender? Podemos vencer sem destruir aquilo que desejávamos proteger? E, talvez acima de todas essas perguntas: o que significa ser homem? Rosa não responde definitivamente a nenhuma delas. E é justamente por isso que sua obra continua viva.

Um homem entre muitas línguas

Talvez seja necessário conhecer um pouco da vida de Guimarães Rosa para compreender a dimensão dessa invenção.

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de junho de 1908. Foi o primeiro dos seis filhos de Francisca Guimarães Rosa e Florduardo Pinto Rosa, comerciante e juiz de paz da cidade. Ainda criança, começou a estudar línguas estrangeiras e demonstrou uma curiosidade linguística extraordinária. Segundo uma declaração atribuída a ele, falava português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano e esperanto, além de ter estudado ou lido diversas outras línguas, entre elas russo, sueco, holandês, latim, grego, húngaro, árabe, sânscrito, lituano, polonês, tupi, hebraico, japonês, tcheco, finlandês e dinamarquês. 

O próprio Rosa dizia que estudar outras línguas ajudava a compreender mais profundamente o idioma nacional. Esse detalhe é importante. O escritor que revolucionaria a linguagem do sertão era também um estudioso obsessivo da linguagem em escala universal.

Em 1925, com apenas dezesseis anos, ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Formou-se em 1930 e começou a trabalhar como médico em Itaguara, no interior mineiro. Foi nesse período que seu contato com a vida sertaneja se tornou particularmente intenso.

A medicina, porém, não seria sua única profissão. Em 1934, depois de aprovado em concurso, ingressou na carreira diplomática. A partir daí, sua vida seria dividida entre o Brasil, a literatura e o serviço diplomático.

Entre 1938 e 1942, trabalhou como cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo, na Alemanha. Foi ali que conheceu Aracy de Carvalho, funcionária do Itamaraty que se tornaria sua segunda esposa. Rosa também trabalhou diplomaticamente em Bogotá e Paris. A imagem que emerge é, portanto, bastante diferente daquela de um escritor isolado em algum rincão do interior mineiro.

Guimarães Rosa conhecia o sertão, mas conhecia também a Europa. Conhecia a medicina, a diplomacia e a literatura. Conhecia a fala popular e estudava línguas antigas. Conhecia a tradição brasileira e dialogava com a literatura universal. Essa combinação ajuda a explicar a singularidade de sua obra.

O escritor

Rosa publicou Magma, livro de poemas, em 1936. Em 1946 surgiu Sagarana, que já revelava o universo sertanejo e a extraordinária capacidade de invenção que seria desenvolvida posteriormente. Dez anos depois, em 1956, publicou Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile.

O impacto de Grande Sertão foi imediato e duradouro. O romance não se encaixava confortavelmente nas categorias existentes. Era regional e universal, popular e erudito, realista e fantástico, religioso e profundamente marcado pela dúvida. Era narrativa e poesia.

O próprio Rosa chegou a definir o livro de maneira curiosa, chamando-o de uma espécie de “autobiografia irracional”. Também afirmava sua ligação com a poesia e a metafísica.

Não é difícil entender por quê. O que interessa a Rosa não é apenas aquilo que acontece. É aquilo que pode significar o que acontece. Uma guerra pode ser uma guerra. Mas pode ser também uma luta interior.

Um pacto pode ser um acontecimento sobrenatural. Mas pode ser também a dramatização de uma decisão humana. O sertão pode ser uma região. Mas pode ser também o mundo. E uma travessia pode ser simplesmente o deslocamento de um homem por uma paisagem. Ou pode ser a própria vida.

A última travessia

Guimarães Rosa morreu no Rio de Janeiro em 19 de novembro de 1967, aos 59 anos. Poucos dias antes, havia finalmente tomado posse na Academia Brasileira de Letras. Ele fora eleito para a Academia em 1963, mas adiara a posse durante quatro anos. Em seu discurso, pronunciou palavras que hoje parecem quase uma despedida: “a gente morre é para provar que viveu.” Três dias depois, morreu de infarto. Sua morte interrompeu uma trajetória que estava no auge.

“Ave, vi de tudo, neste mundo! Já vi até cavalo com soluço… — o que é a coisa mais custosa que há.”

O Bem, o Mal e o Diabo

Riobaldo vive o eterno dilema entre o Bem e o Mal. Ele conhece a violência dos jagunços, participa de guerras, mata e vê matar. Mas não é um personagem que aceite tranquilamente a violência como regra natural do mundo. Ao contrário, passa a vida tentando compreender a natureza do mal e sua própria responsabilidade diante dele.

O Diabo é a grande presença ausente do romance. Ele nunca aparece. Não responde. Não confirma o pacto. Não assina contrato nenhum.

A preocupação de Riobaldo é tão grande que durante a obra nomeia o Diabo de inúmeras maneiras, assim evita pronunciar o nome “Diabo” por superstição e respeito ao demônio, usando dezenas de eufemismos, alcunhas e neologismos ao longo do livro:

O Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Bode Preto, o Marcegão, o Xú, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-sei-que-diga, o Ele, O-que-nunca-se-ri, o Sem-Gracejos, o Sempre Sério, o Pai da Mentira, o Ele, Lúcifer, Satanás, Barzabu (deformação de Belzebu), Diá, Diacho, Satanás, Santão, Rincha-Mãe, Sangue-d’Outro, o Muitos-Beiços, o Rasga-em-Baixo, Faca-Fria, o Fancho-Bode, Treciziano, Azinhavre, Demo, Capiroto, Capeta, Diabo, Cujo, Belzebú, o “0” (zero), Que-Não-Há, Nojo, o Contrário. São alguns exemplos.

“Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele — dizem só: o Que-Diga. Vote! não… Quem muito se evita, se convive.”

No pensamento mágico e na antropologia das religiões, essa ideia é conhecida como o Princípio do Nome Verdadeiro ou a Magia Nominal, estritamente ligada à magia simpática.

A premissa fundamental é que o nome não é um simples rótulo arbitrário, mas sim a essência vibracional, a alma ou a substância da própria coisa ou pessoa.

Pronunciar o nome real de algo produz dois efeitos principais: 

1) Evocação e/ou materialização. falar o nome atrai a presença, a energia ou a matéria daquilo que foi nomeado. É o motivo pelo qual Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas, evita chamar o Diabo pelo nome, exceto quando se apresenta para propor o pacto — ele teme que a palavra funcione como um feitiço de invocação.

2) Domínio e controle, pois conhecer o nome verdadeiro de um espírito, demônio, deus ou ser humano concede poder absoluto sobre ele. Aquele que detém o nome, detém a essência.

Em diversas culturas pelo mundo, o nome de uma pessoa é dividido em camadas de proteção. Existe o nome público (profano), usado nas interações do dia a dia, no comércio e com estranhos. É uma espécie de “escudo”.

O nome verdadeiro (sagrado e secreto) é revelado apenas ao indivíduo durante rituais de passagem (como a puberdade ou a iniciação xamânica). Apenas o xamã, os pais ou o próprio indivíduo o conhecem. Se um inimigo ou feiticeiro descobre esse nome, ele pode lançar maldições diretas que atingem o âmago da pessoa.

Por exemplo, entre os Apinajé e os Guarani no Brasil, há uma profunda relação entre a alma e o nome dado pelos pajés. Em várias tribos norte-americanas, como os Navajo, o nome ritualístico de uma pessoa era mantido em segredo e raramente pronunciado, usado apenas para fins de cura ou rituais de proteção.

Riobaldo vai à encruzilhada e chama pelo “Cão”. Espera uma manifestação, uma resposta, qualquer sinal que confirme a presença demoníaca. Mas não acontece nada que possa ser tomado como prova definitiva. E, justamente por isso, a dúvida se torna mais poderosa do que uma aparição sobrenatural poderia ser.

“Então, ele não queria existir? Existisse. Viesse! Chegasse, para o desenlace desse passo. Digo direi, de verdade: eu estava bêbado de meu. Ah, esta vida, às não-vezes, é terrível bonita, horrorosamente, esta vida é grande. Remordi o ar:

— “Lúcifer! Lúcifer!…” — aí eu bramei, desengulindo.”

Se o Diabo tivesse aparecido, a questão estaria resolvida. Mas ele não aparece. Riobaldo volta da encruzilhada sem saber se havia realmente negociado com uma força sobrenatural ou se a coragem que encontrou naquele momento estava dentro dele próprio.

O pacto pode ser metafísico. Pode ser psicológico. Pode ser ambos. O resultado, entretanto, é real.

Fausto e Riobaldo

A comparação com Fausto, de Goethe, é particularmente interessante. Fausto é movido por uma enorme ambição intelectual. Deseja ultrapassar os limites do conhecimento, dominar os segredos da natureza e superar a insatisfação diante dos limites da existência. Para isso, aceita o pacto com Mefistófeles.

Riobaldo é um homem de outro mundo. Não quer dominar os segredos do universo. Quer coragem. Quer vencer uma guerra. Quer derrotar Hermógenes. Quer proteger e vingar Diadorim. Mas há algo fundamentalmente fáustico em sua situação: um homem diante de seus próprios limites que procura ultrapassá-los por meio de um pacto com aquilo que acredita ser o mal.

No Fausto, Mefistófeles é uma figura real dentro da narrativa. Conversa com Fausto, propõe termos e participa diretamente do pacto.

Em Grande Sertão, o “Cão” permanece silencioso. Riobaldo chama. O Diabo não responde. Não há gargalhadas, fumaça ou aparição. Nada do que se esperaria de uma representação tradicional do pacto demoníaco. E fica para sempre a dúvida: o Diabo esteve ali ou não?

O pacto aconteceu ou foi apenas um ato extremo de sua própria vontade? A coragem veio do Demônio ou nasceu do próprio Riobaldo? É justamente essa indeterminação que torna o romance tão poderoso. O sobrenatural não elimina a responsabilidade humana. Pelo contrário: torna-a ainda mais angustiante.

Diadorim

Mas o pacto não pode ser compreendido sem Diadorim. Riobaldo conhece Diadorim ainda jovem, quando os dois atravessam o rio São Francisco. Anos depois, reencontra-o entre os jagunços.

Diadorim é companheiro de armas, amigo, confidente e objeto de uma paixão que Riobaldo não consegue compreender plenamente. Existe fascínio, devoção, medo, desejo. Mas existe também uma impossibilidade que acompanha toda a relação.

Riobaldo não sabe nomear aquilo que sente. É justamente essa paixão que dá uma dimensão diferente à história do pacto. Riobaldo procura o Diabo para obter coragem para uma guerra que tem como objetivo a vingança de Diadorim contra Hermógenes.

A guerra, portanto, não é simplesmente uma luta entre bandos. Ela é também a expressão de uma paixão. Roberto Schwarz observa que Diadorim não é o Diabo, mas aquilo que coloca Riobaldo diante do destino. O pacto nasce ligado à fidelidade a Diadorim e à necessidade de enfrentar Hermógenes.

Riobaldo aceita o risco do pacto porque está disposto a fazer qualquer coisa para cumprir aquela missão. E consegue. Mas o preço é terrível. Diadorim morre. E, somente depois de sua morte, Riobaldo descobre sua verdadeira identidade: Diadorim era Maria Deodorina. 

A revelação reorganiza toda a história. Aquilo que Riobaldo não conseguia compreender ganha uma nova dimensão. O amor, a amizade, o desejo, a vergonha e a violência passam a ser vistos de outra maneira. Ele venceu. Tornou-se chefe. Derrotou Hermógenes. Mas perdeu Diadorim. A vitória não desfaz a perda.

O sertão

O título do romance talvez contenha uma das chaves de sua interpretação: Grande Sertão: Veredas. Os dois pontos estabelecem uma relação entre os dois termos. O sertão é grande, árido, perigoso, vasto e difícil de dominar. É espaço de guerra, medo e violência. É também o lugar onde o homem se perde.

As veredas são os caminhos que atravessam esse espaço. Pequenos cursos d’água, passagens, lugares onde a vida aparece dentro da vastidão sertaneja. Sertão e vereda parecem opostos. Um é a imensidão. A outra é o caminho. Um é o espaço em que o homem pode se perder. A outra é aquilo que permite atravessá-lo. E talvez seja justamente o homem que estabeleça a ligação entre os dois.

Riobaldo está sempre atravessando. Atravessa o rio. Atravessa a guerra. Atravessa o amor. Atravessa a violência. Atravessa a dúvida. Atravessa a própria vida tentando descobrir se existe um destino ou se somos nós que o construímos depois que os acontecimentos já passaram. Por isso a última palavra do romance é tão significativa: “Travessia.”

Depois dela, o infinito.

“O sertão é do tamanho do mundo. (…) Nonada. O diabo não há! […] Deus é paciência. O contrário é o diabo. O diabo — é a negridão do nada… Existir, firmou. (…) Existe é homem humano. Travessia.”