A Revolução Islâmica de 1979, liderada pelo Aiatolá Ruhollah Khomeini, era vista pelo governo iraquiano como uma ameaça existencial ao regime secular do Partido Ba’ath. A República Islâmica passou a defender abertamente a exportação da sua Revolução, condenando regimes seculares e monarquias.
Saddam Hussein, presidente do Iraque, interpretou a derrubada da Ditadura do Xá Reza Pahlavi como um período de fraqueza da nação iraniana, que seria propício para uma agressão. A verdade é que, ainda que isolado internacionalmente e com deserções em massas no exército, o povo iraniano estava pronto para se defender.
Hussein avaliava que poderia vencer uma guerra rápida e limitada para tomar o Cuzistão e destruir a Revolução Islâmica antes que ela se espalhasse. Em 22 de setembro de 1980, o Iraque lançou uma invasão em grande escala, com o apoio de inteligência, financiamento e fornecimento de material bélico por parte dos Estados Unidos e países europeus. A União Soviética, isolando ainda mais o Irã, forneceu armas ao Iraque.
A Revolução forneceu as armas ideológicas necessárias para uma resistência feroz. Apelando ao martírio xiita, milhares de voluntários, muitos deles jovens e idosos (os Basiji), enfrentam o exército iraquiano. A guerra foi enquadrada não como uma disputa por petróleo ou território, mas como uma guerra santa defensiva contra um agressor ímpio. Apesar do expurgo inicial, o interior do exército e da recém-criada Guarda Revolucionária manteve-se leal à nova ordem, unida contra o invasor estrangeiro. Como também, a consolidação do Aiatolá Ruhollah Khomeini unificando todo o país.
Após meses de feroz resistência, o Irã passou da defensiva para a ofensiva, desencadeando operações que mudariam o curso da guerra. A Operação Fath ol-Mobin, considerada por muitos analistas como o ponto de virada da guerra, foi lançada em 22 de março de 1982, exatos 18 meses após a invasão iraquiana. Sob o comando do Tenente-General Ali Sayad Shirazi, as forças iranianas — combinando o exército regular (Artesh), os Pasdaran (Guarda Revolucionária) e os Basij (milícia voluntária) — executaram um movimento de pinça que rompeu as linhas iraquianas consideradas “impenetráveis” na região de Shush. O resultado foi a destruição de três divisões iraquianas e a libertação de cerca de 2.500 km² do território iraniano.
Dando sequência, o Irã lançou a Operação Beit ol-Moqaddasesta com o objetivo de libertar Khorramshahr, a principal cidade portuária iraniana capturada no início da guerra e símbolo da resistência. Após intensos combates, a cidade foi libertada em 24 de maio de 1982. Diante da derrota, Saddam Hussein anunciou a retirada unilateral de todas as suas forças para as fronteiras internacionais e declarou-se disposto a negociar o fim da guerra. O Irã recusou-se a aceitar o cessar-fogo.
O Irã com a iniciativa
A liderança iraniana argumentava que a guerra deveria continuar. Primeiro, para punir o agressor: o Iraque deveria ser responsabilizado pela invasão. Segundo, para exportar a Revolução, pois o Irã acreditava que a maioria xiita do Iraque se levantaria contra o regime secular ba’athista ao ver o avanço das forças iranianas. Por fim, para garantir a segurança territorial, a queda de Hussein era fundamental. Em 13 de julho de 1982, o Irã lançou a Operação Ramadã, a primeira grande ofensiva iraniana em solo iraquiano, com o objetivo de capturar a cidade de Basra, a segunda maior cidade do Iraque. Foi uma das maiores batalhas terrestres desde a Segunda Guerra Mundial, envolvendo mais de 180 mil soldados de ambos os lados.
Os líderes iranianos acreditavam que a população xiita do sul do Iraque se levantaria em revolta contra Saddam Hussein ao ver a chegada das tropas iranianas. Esperavam que isso facilitasse a conquista de Basra e levasse ao colapso do governo iraquiano. Jovens voluntários dos Basij abriram caminho para a Guarda Revolucionária e as forças regulares. Apesar de algumas penetrações iniciais, as forças iranianas foram detidas pelo sistema de defesa em torno de Basra, composto por trincheiras, arame farpado, campos minados, posições de artilharia e tanques enterrados.
Foi durante a Operação Ramadã que o Iraque fez o primeiro uso significativo de armas químicas na guerra, utilizando grandes quantidades de gás lacrimogêneo para desorganizar o ataque iraniano, o que contribuiu para o seu sucesso defensivo. O resultado foi um impasse custoso. O Irã avançou apenas cerca de 16 km e sofreu baixas estimadas em 20 mil mortos e feridos, sem conseguir capturar Basra. A revolta xiita esperada no sul do Iraque não se materializou.
Em 1983, o Irã lançou três grandes ofensivas (como a operação “Amanhecer” em fevereiro), todas mal-sucedidas e com perdas humanas imensas. Em fevereiro, 200 mil soldados dos Pasdaran atacaram num setor de 40 km perto de Al Amarah. A resposta iraquiana foi maciça, com mais de 200 surtidas aéreas. Mais de 6 mil iranianos morreram num único dia. Até o final do ano, as baixas iranianas eram estimadas em 120 mil mortos, enquanto o Iraque sperdia cerca de 60 mil soldados. Apesar dessas perdas, o Irã mantinha vantagem na guerra de desgaste devido à sua superioridade numérica e disposição para absorver baixas.
Após o fracasso da Operação Amanhecer 5 no sul do Iraque, o Irã abriu uma nova frente nos lagos das marismas Hawizeh, uma região alagadiça que oferecia proteção natural contra as defesas iraquianas. Cerca de 250.000 iranianos ingressaram no deserto iraquiano, enfrentando uma força mecanizada que infligiu pesadas baixas. Em 14 de fevereiro de 1984, as forças iranianas atacaram as defesas iraquianas na ilha petrolífera de Majnun, um dos ativos mais valiosos da guerra, com reservas estimadas em 8 bilhões de barris de petróleo. A Força Aérea iraniana sofria com escassez de peças de reposição para seus aviões de fabricação norte-americana, conseguindo realizar apenas 100 missões de combate por dia, insuficientes para o apoio necessário. Para compensar a falta de aviões, o Irã utilizou helicópteros para apoiar suas tropas, que eventualmente atravessaram as marismas e forçaram os iraquianos a fugir da ilha.
O Iraque respondeu com uso sistemático de agentes letais como gás mostarda e agentes nervosos (tabun). Documentos da CIA estimam que o Irã sofreu mais de 50 mil baixas devido a armas químicas ao longo da guerra. O general iraquiano Maher Abd al-Rasheed, comandante do 3º Corpo do Exército, admitiu em março de 1984 que suas forças controlavam a maior parte da ilha, mas esperavam um novo ataque iraniano a qualquer momento. “Há combates a cada minuto”, declarou.
A partir de 1984, o Iraque mudou seu objetivo militar: não se tratava mais de controlar território iraniano, mas de negar ao Irã qualquer ganho significativo dentro do Iraque e forçá-lo à mesa de negociações através do custo econômico e humano. O Iraque construiu o que chamou de “zonas de morte” ao redor de Basra, compostas por áreas alagadas artificialmente, campos minados e fortificações. O Iraque intensificou os ataques à navegação no Golfo Pérsico, visando navios petroleiros iranianos. O objetivo era provocar uma intervenção internacional que forçasse o Irã a negociar. O Irã respondeu atacando navios cuatianos (aliados do Iraque), o que preparou o terreno para a escalada estrangeira dos anos seguintes.
Dando sequência à Batalha das Marismas, o Irã lançou a Operação Badr com o objetivo de capturar a estrada estratégica que ligava Bagdá e Basra, mas foram novamente repelidas por ataques iraquianos que incluíram uso massivo de gás mostarda e tabun. A operação resultou em pesadas baixas para ambos os lados, sem ganhos territoriais significativos para o Irã. Em seguida, lançou a Operação Amanhecer 8, a maior e mais bem-sucedida ofensiva iraniana desde 1982, representando o auge das conquistas territoriais iranianas. Num movimento surpresa, as forças iranianas cruzaram o Shatt al-Arab e capturaram a Península de Al-Faw, uma posição estrategicamente vital que cortava o acesso do Iraque ao Golfo Pérsico. O Irã ocupou cerca de 777 km² da península, incluindo o porto de Faw.
Saddam Hussein, em pânico, ordenou que a península fosse retomada a qualquer custo, lançando contra-ataques massivos que incluíram o uso intensivo de armas químicas. Apesar de três grandes contra-ofensivas, todas foram repelidas com imensas perdas. Hussein, mais tarde, admitiu o horror da situação: “como chefe de Estado, ver 10 mil pessoas morrerem em menos de quinze dias é uma verdadeira tortura”. Paralelamente às operações no sul, o Irã também empreendeu ofensivas no norte, na região montanhosa curda do Iraque, em 1986. Estas operações visavam estabelecer alianças com os curdos iraquianos e abrir uma nova frente que obrigasse o Iraque a dispersar suas forças.
Escalada regional
Embora a Guerra dos Petroleiros seja geralmente associada ao período pós-1984, seus primeiros sinais surgiram já em 1981. Em maio daquele ano, o Iraque declarou unilateralmente uma zona de guerra e alertou oficialmente todos os navios com destino a portos iranianos na zona norte do Golfo que navegassem por sua própria conta e risco. Os principais alvos nesta fase inicial eram os portos de Bandar-e Khomeini e Bandar-e Mashur. No entanto, foi em março de 1984 que a guerra dos petroleiros entrou em sua fase decisiva. O Iraque iniciou operações navais sustentadas em sua zona de exclusão marítima auto-declarada, que se estendia por 1.126 quilômetros, da foz do Arvand até o porto iraniano de Bushehr.
As motivações iraquianas eram: primeiro, diante do fracasso em obter vitórias decisivas no fronte terrestre, buscar uma nova frente de pressão. Segundo, asfixiar a economia iraniana, dificultando as exportações de petróleo do Irã, sua principal fonte de receita para financiar o esforço de guerra. Por fim, ao provocar uma resposta iraniana desproporcional, o Iraque esperava que o Irã retaliasse de forma tão agressiva que levasse à intervenção estrangeira contra o país. Em particular, o Iraque queria provocar o Irã a tentar fechar o Estreito de Ormuz, o que os Estados Unidos haviam ameaçado diversas vezes que não tolerariam.
Inicialmente, o Irã evitou responder aos ataques iraquianos. Em dezembro de 1980, o Secretário-Geral da ONU, Kurt Waldheim, havia apelado a ambos os lados para garantir a segurança da navegação pacífica no Golfo, e o Irã havia assegurado a outros países que manteria o Estreito de Ormuz aberto. O Irã não queria dar pretexto para intervenção estrangeira. No entanto, a escalada iraquiana em 1984 forçou uma mudança de postura. Em abril de 1984, o Irã lançou seu primeiro ataque contra a navegação civil comercial, alvejando um navio cargueiro indiano. Em 13 de maio, atacou um petroleiro cuaitiano próximo ao Barém e, cinco dias depois, um petroleiro saudita em águas sauditas.
A política iraniana era clara: se o Iraque continuasse a interferir na navegação iraniana, nenhum estado do Golfo estaria seguro. Como o Iraque exportava seu petróleo principalmente por oleodutos (especialmente após o fechamento do oleoduto da Síria em 1982) e era financeiramente sustentado pelos países árabes do Golfo, o Irã direcionou seus ataques contra Cuaite e Arábia Saudita, os principais financiadores do esforço de guerra iraquiano.
O ano de 1987 marcou uma virada decisiva, com a entrada explícita dos Estados Unidos na guerra. Em novembro de 1986, diante dos ataques iranianos que visavam seus petroleiros (o Cuaite sofreu oito ataques), o governo cuaitano buscou proteção internacional. O Cuaite abordou primeiro os Estados Unidos, mas diante da hesitação americana, a União Soviética respondeu primeiro, concordando em fretar vários petroleiros soviéticos para o Cuaite no início de 1987. Temendo a perda de influência na região, os Estados Unidos reverteu sua posição. Em 7 de março de 1987, os Estados Unidos ofereceram-se para registrar com bandeira norte-americana onze petroleiros cuiatianos e escoltá-los com a Marinha dos EUA. O Cuaite aceitou.
Em 14 de abril de 1988, a fragata USS Samuel B. Roberts atingiu uma mina iraniana enquanto retornava de uma escolta. A mina abriu um buraco de 7,6 metros no casco, que sofreu dez baixas. A resposta norte-americana foi a Operação Praying Mantis (Louva-a-Deus), em 18 de abril de 1988, o maior combate naval da Marinha dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. No auge das tensões, o cruzador americano USS Vincennes (CG 49), em meio a um confronto com lanchas iranianas, abateu um avião comercial iraniano, o Voo Iran Air 655, matando todos os 290 passageiros a bordo, incluindo 66 crianças. O governo americano classificou o incidente como um “trágico acidente” decorrente de erro de identificação (o Vincennes confundiu o Airbus A300 com um caça F-14 iraniano). Para o Irã, no entanto, foi uma mensagem clara da hostilidade e do poderio norte-americanos.
A Guerra dos Petroleiros produziu o efeito que Saddam Hussein desejava: a internacionalização do conflito.
Cessar-fogo
A guerra tornou-se tornou insustentável. Até 1988, o Irã havia sofrido perdas estimadas em 300.000 mortos e mais de 500.000 feridos.
A decisão de aceitar o cessar-fogo não foi unânime, refletindo profundas divisões dentro da liderança iraniana sobre como responder à crise. Akbar Hashemi Rafsanjani, então Presidente do Parlamento, emergiu como o principal defensor da aceitação da Resolução 598. Sua posição baseava-se na necessidade de garantir a existência do regime, reduzindo o isolamento diplomático e preservando as forças armadas.
A decisão final coube ao Líder da Revolução Islâmica, Aiatolá Khomeini, que descreveu a aceitação da Resolução 598: “Quanto à aceitação da Resolução, que é de fato um assunto amargo e desagradável para todos, especialmente para mim… eu concordei em aceitar a resolução e o cessar-fogo.” Em sua mensagem histórica, Khomeini explicou que até poucos dias antes ainda acreditava na continuação da guerra, mas foi convencido pelos “especialistas políticos e militares de alto escalão do país, em cujo comprometimento, simpatia e sinceridade confio”. Em termos militares e territoriais, o resultado foi um retorno ao estado inicial: as fronteiras permaneceram as mesmas de 1980, sem reparações de guerra ou compensações para o Irã. O líder martirizado Ali Khamenei, refletindo sobre a guerra anos depois, resumiu a percepção iraniana: “Saddam foi apenas uma ferramenta nas mãos das grandes potências como os EUA… A URSS, alguns países europeus e a Otan estavam contra nós.”